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Como se fosse pela primeira vez
O tempo passa e a idade aplaca-se sobre nós. Amadurecemos, mas também
perdemos coisas. E só nos damos conta de nossas perdas depois que elas
ocorreram. E todo final de ano colocamo-nos a refletir sobre o que fizemos,
o que conquistamos, o que faremos e para onde iremos.
A rigor, podemos qualificar nossas vidas como absolutamente rotineiras. Uma
repetição constante de tarefas e experiências em favor da sobrevivência, da
subsistência. Apenas passamos. E podemos nos
imaginar humanamente medíocres,
vivendo vidas previsíveis e medianas. Mas também podemos tornar estes
eventos únicos, posto que os são. Basta fazer tudo como se fosse pela
primeira vez. E pela última vez. |
Tom
Coelho, com graduação em Economia pela FEA/USP, Publicidade pela
ESPM/SP e especialização em Marketing pela MMS/SP e em Qualidade de Vida no
Trabalho pela FIA-FEA/USP, é empresário, consultor, professor universitário,
escritor e palestrante.
Diretor da Infinity Consulting e Membro Executivo do NJE/Fiesp.
E-mail
tomcoelho@tomcoelho.com.br
Visite:
www.tomcoelho.com.br |
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“Se disser algo
errado, poderá dizê-lo de novo.
Se escrever algo errado, poderá reescrevê-lo.
Se fizer algo errado, o erro ficará com você para sempre.”
(Choochat Watanaruangchai)
Lembro-me quando adolescente de acompanhar admirado pelos jornais que
determinado espetáculo teatral completava cinco anos em cartaz. Então,
questionava-me como poderiam aqueles atores literalmente suportar a mesma
interpretação por duas ou três sessões seguidas, ao longo de três ou quatro
dias consecutivos, ao cabo de tantos anos. Como tolerar os mesmos
procedimentos de bastidores, a rotina de um mesmo script, piadas e cenas
melancólicas igualmente dramatizadas, além de platéias similares, variando
da animação à apatia nos mesmos momentos da apresentação?
Anos
depois comecei a utilizar o transporte aéreo com certa regularidade. E
aquela mesma pergunta tornou a me avizinhar o pensamento. Como podem
pilotos, co-pilotos e equipe de comissários extraírem prazer de tarefas tão
rotineiras? Da recepção dos passageiros à checagem das normas de segurança,
passando pelo serviço de bordo, tudo transcorre religiosamente de igual
maneira a cada decolagem e pouso...
A vida
me reservou surpresas, mudando de forma radical o curso de minha história.
De economista para publicitário, de empresário para consultor, de executivo
para escritor. E palestrante. De repente, vi-me num palco, microfone na mão,
olhos voltados para uma platéia, por vezes tão reduzida que torna possível
saber o nome de cada um dos participantes, e por vezes tão ampla que os
olhos não ousam alcançar o último dos presentes.
E,
neste ofício, descobri que não há rotina, que inexiste a mera repetição.
Cada apresentação é singular, porque os participantes são diferentes, porque
o ambiente conspira de forma diversificada, porque meu estado de espírito é
incomparável. Lembro-me de Saint-Exupéry: “Cada um que passa em nossa vida,
passa sozinho, pois cada pessoa é única e nenhuma substitui a outra. Cada um
que passa em nossa vida, passa sozinho, mas quando parte nunca vai só nem
nos deixa a sós. Leva um pouco de nós, deixa um pouco de si mesmo. Há os que
levam muito, mas há os que não levam nada”.
Tenho
amor verdadeiro pelo trabalho que desenvolvo. Tal qual o ator ama o palco e
o piloto, sua aeronave. Cada peça apresentada é única; cada vôo, ímpar.
Porque as platéias de todos nós são invariavelmente distintas.
O tempo
passa e a idade aplaca-se sobre nós. Amadurecemos, mas também perdemos
coisas. E só nos damos conta de nossas perdas depois que elas ocorreram. E
todo final de ano colocamo-nos a refletir sobre o que fizemos, o que
conquistamos, o que faremos e para onde iremos.
A
rigor, podemos qualificar nossas vidas como absolutamente rotineiras. Uma
repetição constante de tarefas e experiências em favor da sobrevivência, da
subsistência. Apenas passamos. E podemos nos imaginar humanamente medíocres,
vivendo vidas previsíveis e medianas. Mas também podemos tornar estes
eventos únicos, posto que os são. Basta fazer tudo como se fosse pela
primeira vez. E pela última vez.
A
virada do ano, dizia Drummond, industrializa a esperança. Mas pouco adianta
acreditar que este fato isoladamente será suficiente para fazer você mudar
de vida. Fazemos isso a cada dia, a cada momento, a cada atitude.
Que
assim seja com um abraço terno, com um beijo afetuoso, com um olhar
reluzente desferido a quem se despede. No despertar para ir ao trabalho,
numa reunião de negócios, no almoço com os amigos, no retorno ao lar. No dia
de Natal, no Reveillon e em cada um de seus próximos 365 dias.
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