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As verdades de Norton I,
imperador dos Estados Unidos
Entre os anos
de 1819 e 1880 viveu em San Francisco, um homem que se autodenominava Norton
I, Imperador dos Estados Unidos. Vivia e agia como tal e era acatado pela
sociedade com todas as honras. Sua companhia era aceitável, sua presença em
festas e eventos era disputada e seu apoio sempre desejado para toda e
qualquer causa. Imprimia seu próprio dinheiro, que nenhum dono de
restaurante ousava rejeitar. Uma legítima nota de cinqüenta centavos de
dólar do Norton I hoje é comercializada por mais de 500 dólares. Mais de 10
mil pessoas compareceram ao seu funeral, revelando o quanto valorizavam sua
excentricidade.
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Ed
René Kivitz é teólogo, consultor, conferencista e escritor. É autor de
vários livros, dentre eles Quebrando paradigmas, Stress e espiritualidade
integral e Vivendo com Propósitos. É Pastor de uma igreja em SP e fundador
e diretor presidente da Galilea Consultoria e Treinamento. |
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Entre os anos de 1819
e 1880 viveu em San Francisco, um homem que se autodenominava Norton I,
Imperador dos Estados Unidos. Vivia e agia como tal e era acatado pela
sociedade com todas as honras. Sua companhia era aceitável, sua presença em
festas e eventos era disputada e seu apoio sempre desejado para toda e
qualquer causa. Imprimia seu próprio dinheiro, que nenhum dono de
restaurante ousava rejeitar. Uma legítima nota de cinqüenta centavos de
dólar do Norton I hoje é comercializada por mais de 500 dólares. Mais de 10
mil pessoas compareceram ao seu funeral, revelando o quanto valorizavam sua
excentricidade.
Desde que a ouvi num documentário do GNT achei a história
maravilhosa. Já dediquei horas de elucubrações a respeito de Norton I e seu
império particular. De vez em quando suscito uma discussão com amigos para
saber o que eles aprendem com esta história. O que mais me chamou à atenção
foi o fato de que você pode construir uma identidade falsa a seu respeito, e
não faltarão pessoas para acreditar, alimentar e até mesmo tirar proveito da
sua mentira.
Na verdade, acho que todo mundo cresce construindo uma
identidade falsa a respeito de si mesmo. Desde a infância, quando sofremos
as projeções dos pais e da família, passando pela adolescência, período
quando precisamos encontrar um jeito de sermos aceitos e admirados pela
turma, chegando à fase de definição de carreira e casamento, até este mundo
fake, cuja moeda mais valorizada é a imagem e onde ninguém vale mais do que
seu lay-out. Aos poucos vai deixando de ser importante o que de fato somos,
para que entre em cena algo que nos tornamos, ou por escolha própria, ou por
pressão de outros. A menina que disputava o amor do pai e o menino que
disputava o amor da musa da escola crescem e se tornam a executiva que
disputa a admiração do seu homem e o empresário que quer provar pra todo
mundo que é melhor do que o irmão dele sim.
A maioria das pessoas funciona como matéria de
retro-alimentação dessa loucura coletiva de identidades de mentirinha e
infelicidades crônicas. Ninguém se atreve a tirar as máscaras, e muito menos
denunciar as máscaras dos outros. Sobrevivemos de tapinhas nas costas e
elogios evanescentes. Mal de época. Tempos em que ser celebridade é mais
importante do que ser gente. Dias em que para ser celebridade vale tudo (e
viva as promoters), até prostituir a identidade. Mundo de caras e bocas,
onde os seduzidos pelos flashes e spots não buscam outra coisa senão a
notoriedade, a admiração, o comentário invejoso dos demais boçais. Pessoas
esculpidas nos implantes, lipos, plásticas – gente de plástico corpos e
caras de mentirinha admirados e exibidos como verdadeiros, bolhas de sabão,
perfeitos apenas de relance. Sanduíches de fotografia.
Alguém disse que a máscara, se lhe dermos tempo, torna-se o
próprio rosto. Aí acontece o que Orlando Tejo, poeta de cordel, cantou
Eu briguei com um cabra-macho
mas não sei o que se deu
eu entrei pru dentro dele
ele entrou pru dentro deu
e num zuadão daquele
não sei se eu era ele
nem sei se ele era eu.
Isto é, a gente já não sabe quem é quem dentro da gente,
desconhece quem mora na nossa cara, quem domina o pedaço que acreditávamos
nosso corpo.
Mas tem sempre o dia em que a casa cai. Graças a Deus. O Lulu
Santos tem razão, pois tem mesmo
dias que a gente olha pra si
e se pergunta se é mesmo isso ali
que a gente achou que ia ser
quando a gente crescer
e a nossa história de repente ficou
alguma coisa que alguém inventou
e a gente não se reconhece ali
no oposto de um dejavú.
Por estas e outras é que acredito que a maturidade implica
necessariamente na descoberta do si mesmo. A questão primária para todo ser
humano é responder a pergunta que Adão ouviu de Deus logo após o seu pecado,
“Onde estás?”, que não visa a descoberta de uma localização geográfica, mas
sim existencial. O significado desta experiência paradigmática para a raça
humana é a afirmação de que o ser humano que está alienado de deus está
também alienado de si mesmo, e nesse caso, o reencontro com Deus é
necessariamente um reencontro com o si mesmo. É mais ou menos com o se Deus
estivesse se dirigindo a cada pessoa e perguntando “Onde estás?”, ou em
outras palavras, “onde está seu eu verdadeiro, quem é você por trás dessa
máscara?”. Nesse sentido, “onde estás?” é uma pergunta muito próxima de
“quem é você?” Algo do tipo “Que você não é Norton I, imperador dos Estados
Unidos, eu sei. Então, quem é você?”
Meu amigo Alisson captou isso perfeitamente.
Quando olha bem no íntimo
através do teu sorriso
o que será que Deus vê?
bem além da tua lógica
bem atrás de toda estética
o que será que Deus vê?
um coração aflito, um espírito ferido
e uma alma já cansada de representar
alguém desconfiado, sem um verdadeiro amigo
a quem possa se abrir sem se envergonhar
Quando Deus te investiga
bem no âmago da vida
lá no teu eu verdadeiro
é que ele quer por inteiro
transformar a tua essência
num batismo de alegria
verdadeiramente livre te fazer.
Os verdadeiros amigos não são aqueles que nos dão tapinhas
nas costas e vivem alimentando nossos egos falsos. Amigo é aquele que nos
ajuda a enxergar a verdade a respeito de nós mesmos. Amigo é quem nos coloca
de frente pro espelho. Isso exige honestidade, coragem, aceitação, perdão,
encorajamento na direção da transformação, disposição de permanecer ao lado,
caminhando junto, depois que cai o pano.
Não sabemos quem se escondia por trás de Norton I. Não
sabemos também do que ele se escondia, ou de quem fugia, porque precisou se
proteger daquela maneira. Ninguém conseguiu fazer com que ele despisse sua
fantasia. Sequer sabemos se houve quem tentasse. Norton I é uma vida
desperdiçada no esforço de conseguir as melhores mesas nos restaurantes,
viajar sempre de primeira classe, se hospedar nos melhores hotéis, receber
convites para eventos badalados, passar dias em ilhas e castelos, assistir
os espetáculos nos camarotes vips e acumular mimos de marcas famosas.
O mais triste dessa história é que Norton não é uma
personagem, ou um indivíduo desequilibrado. Norton é o nome científico de um
tipo de gente. Aquele foi Norton I, depois dele vieram muitos outros. Gente
que não entendeu ainda o que ensinou o rei Salomão, esse sim uma celebridade
de seu tempo: “maior é aquele que conquista a si mesmo do que aquele que
conquista uma cidade”. As ruas estão cheias de Nortons I. A maioria deles
não está nem mesmo preocupada em conquistar a cidade. Basta-lhes aparecer
numa festa, numa festa, ou numa retina qualquer de outro Norton se
consumindo de inveja.
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