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Deixa de ser
bobo, todo mundo faz.
Esta é a frase mais usada para justificar o comportamento ilícito. Dentro
dela estão embutidas práticas como a do médico que solicita um “por fora”
argumentando que a remuneração do plano de saúde não é satisfatória; do
empresário que molha a mão do pessoal que libera carga na alfândega; do pai
de família que trabalha sem carteira assinada e do empregador que contrata o
pai de família; do vendedor que dá uma comissão ao comprador para fechar
negócio; do comerciante que compra nota fria para tributar menos ou sonegar;
do consumidor que compra produto pirateado porque senão não poderia comprar;
da sacoleira que trabalha no mercado informal para sustentar quatro filhos;
e assim por diante, numa lista de comportamentos interminável assimilados
como “naturais” neste mercado selvagem.
O
cenário comporta múltiplas abordagens, e qualquer um que acredite estar
diante de um problema de fácil solução certamente está fazendo uma análise
simplista. Por exemplo, basta lembrar que o comportamento ilícito tem suas
variáveis. Pelo menos duas, para ser simples sem ser superficial. A primeira
diz respeito aos agentes. A segunda, aos eventos. Quanto aos agentes, os não
éticos podem ser divididos entre os que fazem por estilo de vida, como os
criminosos que montam uma estrutura de mercado e governo paralelos; e os que
fazem por necessidade, como os que se colocam à beira da calçada e estão
mais para sobreviventes do que para imorais. Já em relação aos eventos,
devemos admitir que há distinção entre a transgressão como recurso
emergencial, como a do camarada que aceita ser achacado pela autoridade que
criou a dificuldade para vender a facilidade, e a transgressão como meio de
vida, como a da autoridade que vive criando dificuldade. De minha parte,
embora coloque tudo no pacote do fracasso ético, aceito dialogar com quem
acredita que “uma coisa é coisa e outra coisa é outra coisa”.
Ética, moral e lei
Na
busca de caminhos para o comportamento ético, podemos entrar pela porta das
definições elementares. Devemos, por exemplo, fazer distinção entre ética e
moral. O Frei Leonardo Boff ilumina nossa caminhada dizendo que “Ethos,
ética, na língua grega designa a morada humana. O ser humano separa uma
parte do mundo para, moldando-a ao seu jeito, construir um abrigo protetor e
permanente. A ética, como morada humana, não é algo pronto e construído de
uma só vez. O ser humano está sempre tornando habitável a casa que construiu
para si. Ético significa, portanto, tudo aquilo que ajuda a tornar melhor o
ambiente para que seja uma moradia saudável: materialmente sustentável,
psicologicamente integrada e espiritualmente fecunda. A ética não se
confunde com a moral. A moral é a regulação dos valores e comportamentos
considerados legítimos por uma determinada sociedade, um povo, uma religião,
uma certa tradição cultural etc. Há morais específicas, também, em grupos
sociais mais restritos: uma instituição, um partido político... Há,
portanto, muitas e diversas morais. Isto significa dizer que uma moral é um
fenômeno social particular, que não tem compromisso com a universalidade,
isto é, com o que é válido e de direito para todos os homens. Mas, então,
todas e quaisquer normas morais são legítimas? Não deveria existir alguma
forma de julgamento da validade das morais? Existe, e essa forma é o que
chamamos de ética”.
Moral
identifica um modo de agir humano, regido por normas e valores, por hábitos
e costumes. A moral se relaciona com o comportamento prático do homem. Ética
é uma reflexão teórica que analisa, critica ou legitima os fundamentos e
princípios que regem um determinado sistema moral.
. Ética é princípio; moral são aspectos de condutas
específicas;
. Ética é permanente; moral é temporal;
. Ética é universal; moral é cultural;
. Ética é teoria; moral é prática.
As
leis estão no campo da moral, e devem ser avaliadas a partir de seus
pressupostos éticos. Para que você entenda melhor, a afirmação de que todos
os seres humanos são iguais perante Deus é uma afirmação ética, um princípio
universal, e a lei que considera crime a segregação racial é uma aplicação
moral, bem como a lei que condena a escravidão.
A
ética deve ser, portanto, aplicada moralmente através dos códigos legais. As
leis são instrumentos de regulamentação social. De acordo com Clive Staples
Lewis, teólogo inglês, Sas leis são necessárias, pelo menos por três razões.
Em primeiro lugar, para promover uma arrumação e harmonização no interior de
cada ser humano em particular. Depois, para promover a justiça e a harmonia
entre os seres humanos. Finalmente, com o objetivo geral da vida humana como
um todo, com o fim para o qual o homem foi criado, que se consolida na
possibilidade de um mundo justo e fraterno habitado por seres humanos
plenamente realizados, o que muitos de nós chamaríamos céu ou paraíso.
Em
termos práticos, Lewis está dizendo que “a lei protege a pessoa”, e por isso
o Ministério da Saúde obriga advertências nos produtos tóxicos como fumo e
álcool. Além disso, “a lei promove a justiça”, o que justifica a tributação
como instrumento de distribuição de renda. Por fim, a lei viabiliza a
utopia, que se expressa, por exemplo, na Declaração Universal dos Direitos
Humanos.
Cristianismo: ética, moral e consciência
É
certo que o Cristianismo possui suas premissas éticas (grade de valores) que
determinam sua moral (leis, mandamentos e costumes). Mas também é certo que
a proposta do Cristianismo não é um chamado para que se viva em obediência
a leis e mandamentos morais. O Cristianismo convida a uma nova consciência,
isto é, desafia cada ser humano a interpretar a lei (moral) à luz da ética.
É fácil de explicar as
razões deste desafio à consciência. Tenho basicamente quatro justificativas.
Em primeiro lugar, todos sabemos que nem tudo o que é legal é ético, isto é,
nem sempre a observância da lei é o melhor caminho para a realização do
ideal ético e promoção da justiça. O aborto, a eutanásia e a pena de morte
podem se tornar legais, mas ainda assim continuarão a suscitar discussões
éticas.
A
segunda justificativa da valorização da consciência acima da lei, é que a
lei não é suficientemente abrangente. Uma vez que o ser humano é um universo
infinito, também as relações entre seres humanos será um universo infinito.
A lei nunca será abrangente o suficiente para promover a justiça em todos os
espectros possíveis da complexidade das relações humanas. Cada sociedade vai
desenvolver seus códigos morais em razão da necessidade da sobrevivência e
da convivência. O Dr. Drauzio Varella discute bem essa questão em seu livro
Carandiru, que retrata o dia-a-dia daquele que foi o maior complexo
penitenciário da América Latina.
Um
terceiro argumento está baseado no fato de que a lei se flexibiliza diante
da ética. A lei, que em tese é rígida em sua norma, se submete à ética, que
é dinâmica em sua hierarquia de valores. Por esta razão é que o sujeito que
rouba para dar de comer aos filhos pode ser absolvido pelo tribunal: a vida
é um valor maior que o direito à propriedade. Acredito que foi isso o que
Jesus tentou ensinar ao afirmar que “o sábado foi feito por causa do homem,
e não o homem por causa do sábado”, isto é, a lei deve estar a favor da
vida.
Finalmente, a lei é reguladora dos fatos sociais, e nesse caso, não havendo
o fato que a justifica, a lei perde seu sentido. Quem ficaria parado de
madrugada numa rua deserta só porque o sinal está fechado? O policial que
lavrasse uma multa por avanço de sinal às duas da madrugada numa rua deserta
estaria cumprindo a lei? Novamente voltamos ao paradoxo entre o sábado e o
homem.
Fica
claro, portanto, que somente o tolo obedece sempre, e somente o sábio é
capaz de desobedecer a lei sem transgredir a ética. Poucos são os capazes de
andar na ilegalidade sem cair na imoralidade. E isso faz do Direito uma
ciência extraordinária e bela, pois visa a justiça, acima da lei. Está
explicado porque o Cristianismo, em vez de apresentar um novo código moral,
faz um convite desafiador à nova consciência.
Princípios éticos à luz do Cristianismo
Em
relação à questão da vida profissional e das relações no mercado, posso dar
exemplos de princípios éticos derivados dos valores cristãos. falando de
resultados, o Cristianismo, por exemplo, é diferente do Pragmatismo. O
Pragmatismo diz que o que dá certo é certo, enquanto o Cristianismo diz que
o que é certo vale mais do que o que dá certo. Isto é, nem tudo que dá certo
é certo. Algumas coisas, inclusive, nós fazemos sabendo que resultarão em
prejuízo para nós – darão “errado” – mas preservarão nossa dignidade e
honra, isto é, a nossos valores éticos. O caráter sempre vale mais do que os
resultados.
Falando de gente, as
pessoas sempre valem mais do que os papéis que desempenham: o faxineiro é
tão digno quanto o presidente da corporação. Os relacionamentos sempre valem
mais do que os negócios. A fraternidade está acima do lucro. A solidariedade
está acima das posses.
Falando de dinheiro, a
justiça vale mais do que a prosperidade, e o bem comum vale mais do que a
riqueza pessoal. O bem estar individual não pode existir às custas da
indiferença social. Lembre da figura do vampiro que suga o sangue de todo
mundo até sobrar apenas o sangue dele: o genocídio é uma espécie de
suicídio. Riqueza sustentável é riqueza compartilhada. Dinheiro vivo é
dinheiro circulando, repartido, distribuído.
Caminhos pessoais
Alguém
já disse que a melhor maneira de mudar o mundo é fazer um circulo ao redor
de si mesmo e começar as mudanças a partir do lado de dentro do círculo. Os
alemães dizem que devemos pensar globalmente e agir localmente, o que deve
ter dado origem ao seu provérbio que diz que “em pequenas vilas, pequenas
pessoas estão fazendo pequenas coisas que estão mudando o mundo”. Nesse
caso, mesmo sabendo que esta questão não será equacionada sem a mobilização
social e as transformações estruturais promovidas pela ação política, sugiro
alguns compromissos pessoais-individuais.
#1
Jamais negocie os valores arraigados em sua consciência. Caráter não tem
preço. É melhor dormir mal porque falta cama, do que dormir mal porque a
consciência pesa. As pessoas que me procuram à guisa de dilemas éticos
geralmente estão em defesa de seu padrão de vida, em vez de em luta pela
sobrevivência. O problema de muita gente não é a impossibilidade de fazer o
que é certo, mas a dificuldade ou recusa em assumir o ônus do que é certo.
Muito raramente me deparo com pessoas que não sabem o que fazer. Geralmente
encontro pessoas que não têm coragem de fazer o que sabem que devem fazer.
.
É melhor ter pouco com o
temor de Deus do que grande riqueza com inquietação.
(Provérbios 15.16)
.
É melhor ter pouco com
retidão do que muito com injustiça. (Provérbios
16 .8)
. Melhor é um pedaço de
pão seco com paz e tranqüilidade do que uma casa onde há banquetes, e muitas
brigas. (Provérbios 17.1)
. Melhor é ser pobre do
que mentiroso. (Provérbios 19.22)
.
Melhor é o pobre íntegro
em sua conduta do que o rico perverso em seus caminhos.
(Provérbios 28.6)
#2
Faça distinção entre a prática eventual do ilícito e o estilo de vida
ilícito. A Bíblia também recomenda: “Não seja excessivamente justo nem
demasiadamente sábio; por que destruir-se a si mesmo? Não seja
demasiadamente ímpio e não seja tolo; por que morrer antes do tempo? É bom
reter uma coisa e não abrir mão da outra, pois quem teme a Deus evitará
ambos os extremos” (Eclesiastes 7.16-18). Não encaro isso como
“licença para ser imoral de vez em quando”, mas como recomendação da
sabedoria para julgar e discernir a partir de uma hierarquia de valores.
#3
Pratique a “ética temporal ascendente”. Este é um conceito
muito interessante desenvolvido por Lourenço Stelio Rega, em seu livro
Dando um jeito no jeitinho (Editora Mundo Cristão). Este princípio foi
utilizado, por exemplo, pelo apóstolo Paulo, que não se posicionou
claramente contra a poligamia, mas exigiu dos líderes cristãos que “fossem
maridos de uma só mulher”. Naquele contexto social, a transição brusca da
poligamia para a monogamia implicaria a condenação de muitas mulheres, que
não possuíam quaisquer direitos legais, à miséria e à prostituição. Por
isso, mesmo sendo a monogamia o ideal moral cristão, o apóstolo soube
conviver com a poligamia o tempo necessário para promover a transição, de
modo a evitar maiores complicações sociais.
#4
Participe dos processos de transformações sociais. A mobilização da
população é o instrumento de transformação social em um estado de direito. O
regime democrático implica mais do que o voto, na verdade, exige que o voto
seja precedido pelo esclarecimento e sucedido pelo acompanhamento dos
eleitos. A militância, geralmente associada à política partidária, deve ser
encarada em seu espectro mais amplo, que inclui a sociedade civil em todas
as suas dimensões de representatividade. Cumpra seu papel como cidadão.
Comprometa-se com uma causa. Assuma uma postura. Associe-se com pessoas e
organizações que trabalham para o bem comum. Incentive a solidariedade. Seja
um doador. Faça trabalho voluntário. Divulgue boas notícias. Denuncie.
Assine listas. Candidate-se. Proteste. Faça campanha. Não se omita. Faça
alguma coisa. E se for o caso, chame sua turma e levante uma bandeira.
Conclusão
Geralmente se ouve que as pessoas se perguntam se vale à pena ser honesto. A
profecia de Rui Barbosa se cumpriu: “De tanto ver triunfar as nulidades, de
tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto
ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar
da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto.” Mas receio
que a questão seja um pouco pior: as pessoas já não se perguntam se a
honestidade vale a pena, mas sim se a honestidade é possível.
Mas
não perdi a fé. Não perdi a esperança. Não deixei de acreditar na dignidade
do ser humano. Aprendi que o mundo está dividido em três grupos de pessoas.
Os otimistas ingênuos. Os pessimistas frustrados. E os realistas engajados.
Espero somar entre os que estão de mãos arregaçadas.
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