|
A palavra espiritualidade pode suscitar
muitas imagens: um mosteiro, com homens recolhidos e afastados da realidade,
auto-flagelando-se em penitências; pessoas sentadas em roda, na posição de
lotus, buscando fazer uma ponte entre seu eu mais profundo e com as energias
do universo; o auditório repleto de crentes diante de um pastor mais
parecido com animador de auditório e fazendo promessas para a solução
imediata de quaisquer problemas em trocas de ofertas financeiras; a romaria
de fiéis que cruzam uma pequena vila, à luz de velas, seguindo um santo de
devoção ao som de cantilenas tristes; ou até mesmo a mesa ao lado da sua,
cheia de cristais, gnomos, fitas e amuletos que visam atrair os bons fluídos
e afastar os mau olhados.
Todas
estas, na verdade, são expressões de espiritualidade, cada uma delas
empacotadas à critério de uma tradição religiosa. Cada civilização tem seus
jeitos de sistematizar a experiência espiritual, estruturando as coisas em
termos de dogmas, rituais e padrões morais. Mas isso é o que chamamos de
religião. E o nosso assunto não é religião. É espiritualidade.
Espiritualidade tem a ver com a dimensão imaterial do ser humano. De acordo
com tradição judaico cristã, o ser humano foi criado do pó da terra e depois
o Criador soprou em suas narinas o fôlego da vida, para que ele se tornasse
alma vivente. Há um ditado antigo que diz que “corpo sem espírito é defunto
e espírito sem corpo é fantasma”. O ser humano é um mix corpo e espírito,
isto é, possui uma dimensão material e outra imaterial, e somente na
convivência harmônica entre suas duas dimensões a plena realização pessoal é
possível.
A
dimensão material está mais ligada à sobrevivência e às realidades mais
objetivas da vida pessoal e em sociedade. É por causa do corpo que buscamos
o progresso, o desenvolvimento científico e tecnológico, buscando o máximo
possível de conforto e bem-estar. Geralmente, associamos o corpo com as
capacidades objetivas da mente e com o mundo das coisas, a realidade
material tangível. O espírito, por sua vez, geralmente está associado aos
valores intangíveis, como os sentimentos mais profundos e os prazeres mais
essenciais da existência humana. O corpo está associado ao kronos, o
conceito grego de tempo mensurável, que passa e carrega consigo tudo e todos
ao envelhecimento e à degeneração. Já o espírito está associado ao kairós
e ao aion, o tempo das oportunidades e a eternidade, respectivamente,
onde todas as coisas se renovam e encontram sua plenitude. O corpo é chamado
de homem exterior, enquanto o espírito é chamado de homem interior. O corpo
é a dimensão que nos coloca em busca de sobrevivência e sucesso. O espírito
nos mobiliza na busca por significado.
Por
estas razões, a espiritualidade diz respeito às capacidades humanas mais
subjetivas como criatividade, intuição e sensibilidades múltiplas, que nos
capacitam a lidar com o belo, o afetivo, o prazeroso, em detrimento das
capacidades racionais mais objetivas, como raciocínio e a lógica, que nos
capacitam a lidar com as realidades mecânicas da vida.
Quando
falamos em espiritualidade, portanto, não estamos necessariamente falando de
práticas religiosas, mas sim, e essencialmente, das dimensões menos
exploradas das capacidades e potencialidades humanas. O ser humano integral
é bio-psico-espiritual. E ninguém duvida que o ser humano que desenvolve
todas as suas dimensões é capaz de melhor desempenho em todas as áreas da
vida.
Stefano de Fiores, teólogo italiano, diz que “a civilização industrial não
cumpriu suas promessas: em vez de oferecer um mundo segundo a medida do
homem, em que este pudesse viver e morar procurando o bem comum, trouxe-nos,
entre outras coisas, o critério da produtividade como parâmetro de valor, a
massificação e a manipulação das pessoas, uma angustiante
incomunicabilidade, um futuro ameaçador,a atrofia dos sentimentos e a
poluição ecológica”. Por esta razão, existe “a necessidade de oferecer ao
mundo moderno um ‘suplemento de alma’ que permita ao homem evitar ser
esmagado por suas próprias produções e encontrar a si mesmo de modo
autêntico”.
Esse
raciocínio acompanha as conclusões do filósofo brasileiro Eduardo Gianetti,
em seu recomendável livro Felicidade, onde escreve que “o iluminismo
propôs a relação entre o progresso do processo civilizatório e o aumento da
felicidade humana”. Por “progresso no processo civilizatório”, entenda-se:
“o avanço do saber científico; o domínio crescente da natureza pela
tecnologia; o aumento exponencial da produtividade e da riqueza material; a
emancipação das mentes após séculos de opressão religiosa, superstição e
servilismo; a transformação das instituições políticas em bases racionais; e
o aprimoramento intelectual e moral dos homens por meio da ação conjunta da
educação e das leis”. Mas Gianetti conclui em tom de desilusão, que “entre
as crenças que povoavam a imaginação e a visão de futuro iluminista, uma em
particular revelou-se problemática: a noção de que os avanços da ciência, da
técnica e da razão teriam o dom não só de melhorar as condições objetivas de
vida, mas atenderiam aos anseios de felicidade, bem estar subjetivo e
realização existencial dos homens. Sob este aspecto, seria difícil sustentar
que o presente esteja à altura do amanhã pretendido de ontém”.
Em
outras palavras, o ser humano tem melhor de todas as coisas, exceto sobre si
mesmo. Tratar da espiritualidade é adentrar a este desconhecido mundo das
subjetividades humanas, capaz de sabotar qualquer programa de qualidade e
deixar todo mundo mais eficaz e ao mesmo tempo mais infeliz, o que cedo ou
tarde explode em ineficácia com seus múltiplos e indescritíveis prejuízos. À
.luz destas reflexões, recomendo dez razões para você incluir a
espiritualidade na pauta de discussão de sua empresa.
1. Visão holística
Quem
não tem uma visão integral da vida está atrasado. A empresa que encara seus
funcionários apenas como mão de obra, e não como pessoas inteiras, está
dessintonizada com seu tempo. A vida humana possui múltiplas dimensões: bio,
psíquica, espiritual e social. Para que uma pessoa se entregue por inteiro,
todo e qualquer envolvimento pessoal deve ser satisfatório para todas as
dimensões do ser. O desenvolvimento espiritual possui um potencial
integrador de todas as demandas pessoais, uma vez que promove um estado de
espírito que funciona como patamar de sustentação de todas as áreas da vida.
2. Estabilidade
O
pluralismo do mundo pós moderno, as incertezas sócio-econômicas, a
competitividade do mercado de trabalho são fatores que resultam em
insegurança e geram níveis de stress e ansiedade que conspiram contra o
melhor desempenho do ser humano em todas as áreas de sua vida, especialmente
na sua atividade profissional. O desenvolvimento espiritual, que às vezes é
visto de forma primitiva, buscando nas divindades a bênção para a
prosperidade, ou tido como muleta psíquica, pode ser também encarado como o
caminho da transformação pessoal, que qualifica o ser humano integralmente
para responder com êxito aos desafios que o direito de viver impõe.
3. Teamwork
O
mundo perdeu suas noções hierárquicas e a liderança está esvaziada de sua
autoridade imposta. O sucesso consiste em articular conexões e potencializar
a cooperação. O profissional que não sabe trabalhar em equipe e não é capaz
de qualificar relações pessoais torna-se impedimento ao fluxo de riquezas de
uma organização. As parcerias, por sua vez, dependem de outros fatores
igualmente importantes e que lhe dão sustentação, como por exemplo, a
auto-estima, a auto-confiança, a segurança. O desenvolvimento espiritual
fornece os alicerces interiores que nos permitem abrir o coração para
relacionamentos frutíferos.
4. Significado
O
trabalho não pode ser encarado apenas como fonte para a sobrevivência, mas
também e acima de tudo como oportunidade de contribuição pessoal ao mundo.
Quando o ser humano é capaz de contribuir para o bem comum expressando o
melhor de si mesmo, então as portas da realização pessoal se abrem. O
trabalho passa a ser visto como prazer e responsabilidade que transcendem os
compromissos formais com uma organização. Nesse sentido, todos saem
ganhando: a sociedade, que é servida por um profissional consciente de seu
papel; a empresa, que é objeto da dedicação do profissional; e o próprio
profissional, que tem prazer e se realiza no que faz. O desenvolvimento
espiritual ajuda o ser humano a enxergar o significado permanente daquilo
que é efêmero, e o valor extraordinário daquilo que é rotineiro.
5. Produtividade
Os
programas de qualidade trouxeram a busca das ISO, que atestam o padrão de
excelência dos produtos e serviços de uma organização. A grande questão é
que a qualidade do resultado de uma empresa está na proporção direta da
qualidade de quem produz o resultado. Quem pode esperar qualidade de alguém
que deixa o salário do mês no bar da esquina, possui uma família
desmantelada, ou uma angústia existencial que se expressa em forma de
agressividade, apatia e insatisfação permanente? Todas as empresas deveriam
instituir um programa de busca de “ISO Existencial” para seu quadro de
cooperadores. O desenvolvimento espiritual ajuda a colocar a vida em ordem,
de modo que o potencial produtivo de cada ser humano não seja roubado pela
necessidade constante de solução de conflitos.
6. Integridade
Um dos
mais danosos sentimentos que o ser humano cultiva é a culpa. A consciência,
ou a mera sensação de dívida, é um dreno psico-emocional. Quando os valores,
posturas e procedimentos de uma empresa não estão alinhados com as
convicções de seus funcionários, a empresa é composta de pessoas em conflito
com suas próprias consciências, que se doam com reservas. Quando o
profissional não é capaz de enquadrar sua atividade em uma moldura que
satisfaz os valores mais íntimos que alimenta, a empresa passa a ser vista
como mal necessário, e até mesmo como adversária à sua qualidade de vida. O
desenvolvimento espiritual proporciona a unidade de crenças e valores em uma
empresa. Como resultado, surge um horizonte comum de procedimentos que
permite a soma dos esforços e o espírito de cooperação sem que nenhuma das
partes se sinta lesada ou violentada no processo.
7. Cooperatividade
As
organizações da sociedade já não se compreendem como únicas e suficientes na
formação e cuidado do ser humano. A cooperatividade entre escola e família,
igreja e Estado, empresas e ongs, enfim, das diversas instituições
dentro das quais o ser humano interage é fundamental para que este ser possa
se realizar enquanto pessoa. Independentemente dos benefícios que uma
empresa pode colher em razão de considerar o ser humano em suas múltiplas
relações, existe o fato de que o respeito às liberdades e consciências
individuais é uma das características do que chamamos de mundo civilizado.
Tratar o ser humano integralmente é um fim em si mesmo. Respeitá-lo em suas
opções existenciais e trabalhar por uma sociedade inclusiva é uma
responsabilidade de qualquer organização com um mínimo de dignidade. O
desenvolvimento espiritual não é um compartimento estanque da vida humana,
mas afeta a integralidade de suas relações. A empresa que reconhece isso
cumpre seu papel na formação do homem.
8. Imagem
Estudos recentes mostram a preocupação do público em estabelecer relações
comerciais com empresas conscientes de suas responsabilidades éticas,
ecológicas, e sociais. Não são poucos os que preferem ganhar um salário
menor trabalhando em uma empresa compatível com suas crenças e valores.
Muitas pessoas preferem comprar uma marca associada às questões que
transcendem os interesses puramente comerciais e econômicos. O
desenvolvimento espiritual é a plataforma através da qual a empresa alinha
sua imagem pública com a realidade operacional. De fato, a integração entre
discurso e prática é o alicerce do sucesso duradouro.
9. Riqueza
A
verdadeira riqueza consiste em promover o crescimento simultâneo de todas as
contas correntes, sem transferir fundos de umas para as outras. Quando
alguém saca da conta caráter para depositar na conta financeira, ou saca da
conta saúde para depositar na conta carreira, ou da conta família para
depositar na conta prazer, está fazendo um jogo que quase sempre acaba em
falência existencial. O desenvolvimento espiritual oferece discernimento,
sabedoria, e libera as fontes do enriquecimento pleno.
10. Revolução
Fazemos parte de uma aldeia global. Nossos horizontes de ambição não se
esgotam em pessoas equilibradas, famílias saudáveis, empresas prósperas ou
uma sociedade justa. Queremos um mundo novo. E muito embora saibamos que
nada se compara à plenitude universal que um dia se manifestará na história,
vivemos sob o imperativo de manifestar aqui e agora o máximo possível deste
mundo em plenitude. O desenvolvimento espiritual é a porta de acesso não
apenas à transformação pessoal, mas para a revolução mundial. Tal ambição
não é mero otimismo ou pretensão quixotesca, mas apenas a vazão do clamor
das entranhas de todo ser humano desperto. A busca desenfreada pelo lucro
imediato não é uma razão pela qual viver. Nós humanos somos nostálgicos da
utopia.
|

|