|
Tem também aquela
dos três operários que tiveram que responde a um passante o que estavam
fazendo. O primeiro disse, “Estou assentando tijolos”. O segundo, “Estou
correndo atrás do leite das crianças”. E o terceiro foi bem mais longe,
“Estou construindo uma catedral”.
Verdade verdadeira que quanto mais abrangente a consciência a respeito do
seu trabalho, mais dignidade e motivação você encontrará nas tarefas do
dia-a-dia. A Bíblia conta a história de Jacó, que trabalhou 14 anos para o
sogro em troca da autorização para casar com Raquel – vai ser apaixonado
assim lá na Bíblia! O fato é que o Nietzsche tinha mesmo razão: “somente
quem sabe o porque da vida é capaz de suportar-lhe o como”, ou se você
preferir, somente quem sabe porque está trabalhando é capaz de suportar a
rotina. Poderíamos ampliar essa idéia para, “quanto mais nobre a motivação,
mais leve o trabalho”, ou “quanto maior a motivação, menor o sacrifício”,
isto é, se você souber que levar duas toneladas de pedra até o alto da
montanha salva a vida do seu filho, então, que venha a montanha.
O
segredo é encontrar um significado para o trabalho. A atividade não pode ser
um fim em si mesmo. Gosto de acreditar que trabalhar é cooperar com Deus
para colocar ordem no caos – imagine como seria o mundo sem aqueles caras
que limpam as galerias de esgoto (aliás, não precisa imaginar, basta visitar
São Paulo numa tarde de chuva forte). Trabalhar é cooperar com Deus para
colocar ordem no caos, tornar o mundo habitável, mais justo, mais fraterno,
mais solidário, isto é, o mais parecido possível com o paraíso. Utopia?
Claro. Mas é bom que sejamos movidos por utopias. A alternativas são o
niilismo, o cinismo, ou algo pior.
Gosto
também de acreditar que o trabalho é uma experiência de autodesenvolvimento,
coisa que disse o Vinícius, “o operário faz a coisa e a coisa faz o
operário”. Trabalhar é expressar talento, canalizar aptidão de maneira útil,
fazer algo que presta para um montão de gente, o que dá aquela maravilhosa
sensação de “eu faço diferença”. Enquanto a gente vai transbordando para o
mundo através do fruto do nosso trabalho, a gente vai se conhecendo,
aprendendo a se dominar, se desenvolvendo emocional, intelectual e
espiritualmente. Eu ficaria orgulhosíssimo de ouvir uma mulher dizer “meu
marido melhorou muito desde que começou a trabalhar com o senhor, é mais
paciente com os meninos e parou de beber”, ou então imagine aquela mãe
cumprimentando você no dia da festa de fim de ano “doutor, obrigado, meu
menino é outra pessoa desde que veio trabalhar no seu escritório”. O maior
fruto do seu negócio é o tipo de gente que ele coloca na sociedade. Uma
pergunta que sempre me faço é a seguinte, “o que esse cara aprendeu durante
estes cinco anos que trabalha na minha equipe?”. O camarada que trabalha no
estoque ainda está lá, ou sua empresa facilitou uma formação universitária
para ele? A menina que trabalhava na recepção ainda está lá, ou sua empresa
ajudou que ela terminasse o segundo grau? A faxineira já sabe ler? Seu
motorista já mudou para uma casinha melhor? Seu engenheiro está mais
equilibrado ou ainda está na mão de agiota? Enfim, você faz gente melhor, ou
ganha dinheiro com elas? Você usa a coisa para ganhar pessoas, ou usa
pessoas para conseguir as coisas? O trabalho que não me faz melhor não me
serve. O ambiente profissional que não alavanca biografias ainda está aquém
de seu potencial pleno de produtividade.
Filosofia à parte, o negócio é o seguinte: é negócio mesmo. Apesar da beleza
dos conceitos trabalho e utopia, trabalho e justiça social, trabalho e
desenvolvimento pessoal, no fundo, no fundo, a maioria trabalha mesmo é para
ganhar dinheiro. Convenhamos que é muito difícil passar a tarde atrás de um
guichê e na frente de uma fila interminável que se arrasta, e fazer isso
acreditando que o mundo vai ficar melhor quando a fila acabar, ou que você
vai embora pra casa mais gente do que quando assumiu o balcão. Fala a
verdade, imagine você dando uns tapinhas no ombro dos caras que estão
atravessando a garagem com uma geladeira pendurada no cinturão, “parabéns
pessoal, o mundo vai ficar bem mais bonito quando vocês chegarem no décimo
quarto andar”. E aquela reunião de planejamento? E os gringos que chegaram
da matriz e querem saber os detalhes da projeção da variação cambial, o
efeito de médio prazo na rentabilidade da operação, e por que a lata de
ervilha do concorrente é oito centavos mais barata?
Outro
dia eu conversava com o diretor comercial de uma multinacional que me dizia
que, sendo bem honesto, ele trabalhava para ganhar dinheiro para o acionista
e corria atrás das metas por causa do bônus do final do ano. A conclusão
dele era que essa conversa que tenta dar uma dimensão nobre na selvageria
das relações de mercado é tudo enganação, maquiagem, discurso para apaziguar
consciência. Não me conformei com o veredicto. Mas me solidarizo com os
camaradas que estão estressados pela correria atrás de resultados,
entediados com intermináveis reuniões de blá-blá-blá, frustrados com a
incompetência do chefe, desanimados porque chegaram na idade que limita sua
ascensão na empresa e diminui suas chances no mercado, ou que foram
injustiçados por uma política interna da companhia decidida lá do outro lado
do mundo.
Chegamos numa encruzilhada. Não podemos abrir mão da dimensão que alinha o
trabalho e a vida profissional com nossos valores e crenças mais profundas.
Mas não são raras as vezes quando não conseguimos enxergar qualquer relação
entre o que fazemos durante a maior parte do nosso tempo acordado com aquilo
que realmente importa. Depois de alguns anos conversando com pessoas que
chegaram nesse impasse, cheguei a algumas conclusões.
Uma
delas é que o significado do trabalho e da atividade profissional não está
necessariamente na atividade essencial que o define. O significado do
trabalho não está necessariamente em atender a fila, redigir uma petição,
planejar o lançamento de um novo produto, restaurar um dente ou mudar a
geladeira de uma cozinha para outra. Evidentemente, o mundo seria um caos se
essas e milhões de outras coisas não fossem feitas. Mas o segredo não está
necessariamente na atividade. É claro que algumas pessoas conseguem ver suas
atividades e as ações que definem a essência de seu trabalho, como um fim em
si mesmas. Mas se não é o seu caso, nem tudo está perdido, pois o segredo
não está no que você faz. Existem outros alicerces para que seu trabalho
seja uma fonte de satisfação e seja redimensionado para significados
perenes. Você deve focalizar não apenas o que você faz, mas também e
principalmente como você faz, o ambiente onde você faz, as pessoas com quem
você faz, as recompensas que você alcança depois que faz.
É
possível que o camarada chegue em casa quebrado e diga pra esposa que passou
o dia todo carregando caminhão. Mas também é possível que chegue em casa e
diga que enquanto carregava caminhão pôde conversar com o Carlão, “que tá de
cabeça cheia e ficou dois dias no bar, e eu falei pra ele sair dessa vida”.
É possível que a mulher chegue em casa exausta e resmungando daquelas
velhinhas que demoram 20 minutos para pagar uma conta de luz e nunca ouviram
falar em débito automático. Mas também pode chegar em casa e contar que a
filha da Ritinha tá grávida e o marido desempregado, e que ela chamou tomou
mundo pro almoço do sábado, “já que os meninos tão viajando mesmo, a gente
pode fazer um agrado pra Ritinha que ajudou muito a gente quando sua mãe
tava no hospital”.
Imagine como fica diferente quando o seu Pedro chega no fim de semana e diz
que estas duas horas a mais que ele trabalhou por dia no táxi valeram a pena
e que vai dar pra fazer a festinha de um ano do netinho. Ou então quando o
Paulo Roberto desabafa com o pai dizendo que a empresa não remunera tão bem,
mas que a chance de fazer o MBA e a oportunidade de trabalhar com o Dr.
Estevão são impagáveis.
Então
a coisa é a seguinte. De vez em quando você tem certeza que está construindo
uma catedral, outras vezes está apenas assentando tijolos e na maioria das
vezes está defendendo o leite das crianças e uma aposentadoria confortável.
Mas qualquer que seja sua atividade profissional e seu ambiente de trabalho,
sempre é possível fazer as coisas com integridade e qualidade, expressar
talentos e canalizar capacidades de maneira útil visando beneficiar o maior
número possível de pessoas, cultivar bons e agradáveis relacionamentos,
praticar a camaradagem e desenvolver amizades profundas e duradouras,
aprender alguma coisa, crescer como gente e se aperfeiçoar como
profissional, somar recursos e amealhar riquezas que poderão ser desfrutadas
e compartilhadas. Basta levantar os olhos dos fatos e das atividades
tangíveis e visíveis, pois como Einstein fez questão de registrar no
aforismo afixado na parede de seu gabinete “nem tudo que conta, pode ser
contado, e nem tudo que pode ser contado, conta”.
|

|