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Emprego, empregados e empregadores
Em 1990, a taxa de desemprego na região metropolitana era de 4%. Hoje, beira 20%. Isso dá razão a Rosabeth Moss Kanter, quando diz que “se a segurança não vem mais de ser empregado, precisa vir de ser empregável”. A General Eletric é mais explícita em seu discurso: “Podemos demitir você a qualquer momento, mas você pode permanecer nesta organização enquanto, de alguma maneira, estiver agregando valor. Permanecendo aqui, nós lhe daremos um trabalho interessante e recursos para desempenhá-lo; pagaremos seu salário e lhe daremos treinamento, de modo que, quando o tempo chegar, você deverá ser capaz de achar outro emprego em outra companhia ou em qualquer outro lugar”.

Ed René Kivitz é teólogo, consultor, conferencista e escritor. É autor de vários livros, dentre eles Quebrando paradigmas, Stress e espiritualidade integral e Vivendo com Propósitos. É Pastor de uma igreja em SP e fundador e diretor presidente da Galilea Consultoria e Treinamento.

De acordo com o DIEESE, que calcula a taxa de ocupação das pessoas em São Paulo, o índice de desemprego explodiu nos últimos 13 anos. Em 1990, a taxa da região metropolitana era de 4% da população economicamente ativa sem trabalho. Hoje, este índice beira 20%. Isso dá razão a Rosabeth Moss Kanter, quando diz que “se a segurança não vem mais de ser empregado, precisa vir de ser empregável”. A General Eletric é mais explícita em seu discurso a respeito da instabilidade do emprego. Faz circular em seus corredores a seguinte declaração: “Podemos demitir você a qualquer momento, mas você pode permanecer nesta organização enquanto, de alguma maneira, estiver agregando valor. Permanecendo aqui, nós lhe daremos um trabalho interessante e recursos para desempenhá-lo; pagaremos seu salário e lhe daremos treinamento, de modo que, quando o tempo chegar, você deverá ser capaz de achar outro emprego em outra companhia ou em qualquer outro lugar”.

Estas reflexões mostram que, a respeito de empregos, empregados e empregadores, uma grande mudança de paradigmas está ganhando corpo no mercado. Posso citar pelo menos quatro.

1- Já não se fala mais em ter um emprego, mas sim em ter empregabilidade, isto é, competências que interessam ao mercado, e que podem ser “vendidas” para várias organizações, inclusive ao mesmo tempo. Mais importante do que ter emprego é ter trabalho. Gutemberg de Macedo cunhou a expressão leasing pessoal  “como uma possibilidade para os profissionais que perderam seus empregos mas desejam manter viva sua empregabilidade”. Leasing pessoal é “arrendar seu trabalho, e não sua pessoa”. Seguindo o mesmo raciocínio, Charles Handy recomendou que devemos “parar de pensar em termos de empregados e empregadores”, e H. Jackson Brown disse que “o maior erro que você pode cometer é acreditar que trabalha para alguém”.

2- O plano de carreira já não é mais uma tarefa da empresa empregadora, mas do próprio profissional. Você deve decidir seu futuro e tomar providências para chegar lá. Quando você não decide seu futuro, alguém faz isso por você, e nesse caso, escolherá um futuro que seja conveniente para ele e não para você. Gutemberg de Macedo adverte, dizendo que “é estranho, mas é verdade. São poucos os profissionais que têm objetivos de vida claramente definidos. Em geral, confiam suas vidas às organizações e estas, muitas vezes, os sufocam. É inadmissível que homens e mulheres em busca de sucesso profissional subestimem a importância da gestão individual de suas carreiras”. Por esta razão, Cliff Hakim, em seu livro com o sugestivo título “We are all self-employed” (algo como “todo mundo é empregado de si mesmo”) adverte que “todos nós temos dois empregos, e um deles é ser o administrador da nossa própria carreira”.

3- As fronteiras entre trabalho, estudo e lazer estão cada vez mais tênues. Imagine um executivo lendo filosofia enquanto balança na rede no sítio ao entardecer do sábado: ele está trabalhando, descansando, se divertindo, ou estudando? Imagine um camarada de 17 anos às três da madrugada na sala 29 de um prédio que abriga uma companhia de software no Vale do Silício, desenvolvendo um protótipo de vídeo game: ele está trabalhando ou se divertindo?

4- O trabalho já não é visto apenas como “ganha pão”, pois os mais esclarecidos já descobriram que “nem só de pão vive o homem”. Os profissionais contemporâneos estão em busca de significado, algo que vincule a atividade profissional aos valores mais profundos e perenes da existência humana.

O ponto comum de todas estas reflexões é que a distinção entre vida profissional e vida pessoal está chegando ao fim. Não existe mais essa coisa de ser uma pessoa em casa e outra no trabalho, ter valores éticos pessoais e outros profissionais, ter uma fé privativa que não seja levada para o mundo dos negócios; ter sonhos para a família independentes da prospecção da carreira. Por esta razão, cada um deve escolher seu futuro, fazer o máximo para não deixar a agenda nas mãos de uma corporação, integrar as dimensões da vida em busca de mais harmonia, e buscar encaixar o trabalho no sentido da vida.

Convenhamos que são poucos os que podem se dar ao luxo de pretender viver estas possibilidades. Numa sociedade de desigualdades sociais tão imensas, a maioria esmagadora dos trabalhadores ainda se ocupa com a sobrevivência. Estou ciente, portanto, que meus leitores são minoria.

Considerando a possibilidade de ser você um dos felizardos que pode pensar em termos de agir na direção de um futuro desejado, sugiro alguns exercícios.

1- Faça uma lista dos seus talentos

Marcus Buckingham e Curt Coffman analisaram uma pesquisa feita pela Gallup Organization com 80 mil executivos e escreveram suas conclusões num livro interessante desde o título: Primeiro quebre todas as regras. Eles definem talento como "um padrão recorrente de pensamento, sentimento ou comportamento que pode ser aplicado de maneira produtiva". Geralmente, quando pensamos em talento, lembramos de capacidades extraordinárias como as de Pelé, Michael Jordan, Mozart, Beethoven e Albert Einstein. Mas o fato é que todos nós possuímos um padrão recorrente para agir e reagir. A memória fotográfica, o sentido de direção, o raciocínio matemático e o senso estético são exemplos de padrões de pensamento, sentimento e comportamento.

Para simplificar as coisas, talento é o que você faz “com o pé nas costas”, como se diz no popular. Talento é como escrever com a mão certa. Quando você escreve com a mão trocada, o esforço e o desconforto são maiores, e o resultado provavelmente não é do seu agrado. Talento é algo que você faz naturalmente, como por exemplo minha cunhada que tem a invejável capacidade de fazer todo mundo se sentir especial e amado, ou minha esposa que é capaz de servir qualquer pessoa como se estivesse servindo seu filho ou sua filha. Fazer conta de cabeça, enxergar uma casa linda num terreno baldio, tocar instrumentos de ouvido, cozinhar, conversar, ouvir, escrever, consolar. Enfim, talento é aquilo que você acha fácil e todo mundo acha difícil.

Buckingham e Coffman dizem que “você tem um filtro, um modo característico de reagir ao mundo que o cerca. Todos nós temos. Seu filtro lhe diz que estímulos notar e quais ignorar; quais deles amar e quais odiar. Ele cria suas motivações inatas. Você é competitivo, altruísta ou guiado pelo ego? Ele define seu modo de pensar. Você é disciplinado ou adota o laissez-faire, raciocina de maneira prática ou estratégica? Ele forja suas atitudes prevalecentes - você é otimista ou cínico, calmo ou ansioso, empático ou frio? Ele cria em você todos os seus padrões distintos de pensamento, sentimento e comportamento. Com efeito, seu filtro é a fonte de seus talentos”. Ao contrário daquela máxima “desenvolva seus pontos fracos” o conceito de talento nos coloca diante de “uma importante descoberta: todo papel, desempenhado com excelência, exige determinados padrões recorrentes de pensamento, sentimento ou comportamento. Isso significa que grandes enfermeiras têm talento. O mesmo ocorre com grandes caminhoneiros e grandes professores, grandes zeladores e grandes comissárias de bordo”. (Recomendo a leitura do capítulo Talento, no meu livro Vivendo com propósitos)

2- Descreva seu emprego ideal

Você pode descrever o emprego ideal baseando-se em vários fatores, como por exemplo, ambiente, atividades e carga horária. Você prefere trabalhar num escritório ou na rua, sozinho ou em equipes, desenvolvendo rotinas ou administrando emergências, pela manhã, de madrugada ou à tarde? Que horas “começa” seu dia de trabalho? Que horas “termina”? Quais são as atividades que você deve desempenhar? Quais as competências, habilidades e conhecimentos necessários a tais atividades? Quem são seus parceiros, quantos são, como estão acomodados em relação a você: cada um na sua sala privativa, em cubículos no mesmo andar, numa rede virtual? Quanto você ganha? Quanto acha que deveria ganhar? Enfim, dê asas à imaginação e descreva seu emprego ideal. (Caso não consiga, isso já diz muito a seu respeito. Um coach poderia ajudar. Estou à disposição).

3- Venda seu peixe

Imagine que seu chefe lhe deu 10 minutos para que você defenda sua continuidade neste seu emprego. Você está numa lista com mais dois outros funcionários da sua empresa e seu chefe está em dúvida a respeito de qual dos três deve permanecer. Você não faz a menor idéia de quem são os outros dois, e portanto, ainda que fosse tentado a esta indelicadeza, não poderia tentar “apagar a luz deles para fazer brilhar a sua”. Nesse caso, você deve falar única e exclusivamente a respeito de você mesmo. O camarada à sua frente vai dizer: “Quando a luz vermelha acender estará gravando, daí pra frente é por sua conta...” O que você diria?

Posso ajudar, dando um roteiro breve. Comece alistando os resultados chave da sua organização. Defina claramente quais são as coisas que não podem deixar de acontecer, sob pena de comprometer toda a operação e o futuro da sua empresa. Depois, mostre quais são os resultados nos quais você pode interferir diretamente. Comente como os fatores determinantes para que estes resultados sejam alcançados combinam com seus talentos, conhecimentos e experiências. Em seguida, apresente resultados claros de sua contribuição. Afinal de contas, você não vai defender sua continuidade fazendo promessas, mas sim mostrando resultados já alcançados. Finalmente, deixe com que seu chefe veja que você tem planos para aquelas áreas, mostre que você sabe o que vai fazer amanhã caso permaneça na empresa.

Abre parêntese. Seja honesto, fale a verdade, ainda que coloque em risco seu emprego. É bem provável que no meio deste exercício você chegue à conclusão que está na empresa certa, mas no lugar errado. Seu chefe não viu isso – eles geralmente não vêem. Mas não se esqueça que o gestor de sua carreira é você, e não seu RH ou seu superior imediato, ou mesmo “a companhia”. Caso o cruzamento entre sua auto-avaliação e os resultados chave da organização demonstre certa incompatibilidade, bote a boca no mundo. Diga que você acredita que contribuirá muito mais caso seja re-alocado. Mesmo que seja para o lugar do seu chefe. Fecha parêntese.

4- Avance no tempo

Dê um salto de cinco anos e responda honestamente: você gostaria de estar fazendo a mesma coisa que faz hoje? Não seja óbvio respondendo de imediato “Claro que não”. Eu sei que os cenários mudam, as pessoas mudam, as organizações mudam. Não estou perguntando se você gostaria de estar fazendo as coisas do mesmo jeito, mas se gostaria de estar fazendo a mesma coisa. Conheço um dentista que hoje é dono de uma franquia de sorvetes, um pastor que hoje é psicólogo clínico, um engenheiro mecânico que confecciona arranjos florais, um musicista que é professor de inglês, um administrador que é coach de executivos, e um administrador de empresas que é gestor de uma igreja batista. Você não está condenado a ser na segunda metade da sua vida, o que foi na primeira. (Recomendo a leitura de Halftime, escrito por Bob Buford, Peter F. Drucker e Terry Whalin).

5- Faça um plano

Há pelo menos quatro variáveis que precisam ser consideradas no seu plano para chegar no futuro desejado: seus talentos, suas funções, suas qualificações, e os recursos, como tempo e dinheiro. Para esboçar este plano, você deve, portanto, responder pelo menos as seguintes perguntas:

1- quero continuar neste emprego?
2- quais são as funções que pretendo desempenhar?
3- como posso me qualificar melhor para as funções pretendidas?
4- quais são meus próximos passos?
. para chegar nas funções pretendidas
. para me qualificar para as funções pretendidas
5- quanto tempo e quanto dinheiro devo despender neste processo?
6- tenho os recursos, ou preciso alavancar? se preciso, onde vou alavancar?
7- quando darei o primeiro passo? quando pretendo cruzar a linha de chegada?

E depois? Depois, é outra conversa!



 




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