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Stephen Covey, em seu
livro First things first, apresenta as quatro gerações do gerenciamento do
tempo. A primeira geração é a dos “to do”, lembretes e checklists. A segunda
geração é a do planejamento e da preparação, que implica definir metas e
agendar atividades e eventos futuros. A terceira geração é baseada em
definição de prioridades e controles. A quarta e última, é apresentada pelo
Covey em substituição [que ele chama de revolução] às outras três, é
caracterizada por prioridades e princípios.
A
proposta de Stephen Covey é interessante em suas premissas e fundamentos.
Afirma que mais importante do que administrar o tempo em termos de metas e
eventos é [1] tomar decisões baseadas em princípios, isto é, visando
satisfazer as necessidades humanas universais, [2] respeitando as leis
naturais de causa e efeito que governam o universo, e [3] priorizando o
importante em detrimento do urgente.
Na
prática, entretanto, a teoria é outra. Na verdade, a proposta de Covey
acrescenta alguns ingredientes às outras três, mas funciona dentro do mesmo
paradigma, a saber, a gestão de metas e eventos futuros. A diferença entre
uma e outras é o conjunto de critérios. Covey defende que não bastam os
valores, pois existem leis universais, tanto para a pessoa humana e suas
relações, quanto para o mundo natural, que transcendem os valores
individuais.
A 5a
geração
Faço
uma outra proposta. Convido você para uma quinta geração: a quebra do
paradigma da gestão de metas. O conceito comum de planejamento pressupõe
duas perguntas fundamentais: onde quero chegar? E como pretendo chegar lá?
Não há nada de errado com isso. [Registre-se, entretanto, que o mundo está
cheio de gente satisfeita, realizada e feliz que não tem a menor idéia de
para onde vai e não está nem um pouco preocupada com isso].
Duas
coisas estão implícitas no paradigma tradicional do conceito de
planejamento. A primeira é a premissa, a segunda é o compromisso. Quanto à
premissa, planejamento implica naturalmente metas, isto é, pontos de chegada
mensuráveis: planejar é definir onde se pretende chegar. Quanto ao
compromisso, planejamento pressupõe que se ande em direção ao planejado,
isto é, quem planeja assume o compromisso de fazer o máximo esforço para que
suas decisões conduzam sempre ao ponto de chegada planejado.
Minha
proposta é abandonar a tirania das metas. Em outras palavras, você não tem
um futuro planejado, mas sim um futuro idealizado. Em segundo lugar, você
não decide visando chegar ao futuro planejado, mas tendo o futuro idealizado
como referência para sua decisão. Nesse sentido, estamos falando em
planejamento de processos, em vez de planejamento de metas.
Processo é um conjunto harmônico de atividades permanentes que naturalmente
conduzem você a um resultado. Você não deve viver sob o peso da obrigação de
chegar a um lugar previamente determinado. Sua preocupação deve ser em
desenvolver o melhor conjunto de atividades que lhe poderá conferir o melhor
resultado possível. O caminho rumo ao futuro é cheio de oportunidades,
possibilidades, ameaças e imprevisibilidades. Viver é administrar o
imponderável, superar o inevitável, encontrar trilhas para romper o
intransponível, sonhar com o impossível para realizar o máximo possível.
Para
falar a verdade, na prática, mesmo os planejadores mais detalhistas e
exigentes vivem mais em função do futuro idealizado do que do futuro
planejado. As mudanças constantes de cenários obrigam a revisões constantes
do planejamento, o que equivale dizer que o que os planejadores chamam de
planejamento de longo prazo não passa de infinitos planejamentos de curto
prazo, que resultam das inúmeras revisões do planejamento de longo prazo.
Pior do que isso é que as inúmeras revisões obrigam a inúmeras correções de
ações, isto é, ninguém faz o que planejou fazer. O resultado é óbvio:
ninguém chega onde planejou chegar. Isso é ao mesmo tempo bom e mal. Mal
porque geralmente a avaliação é negativa: já que ninguém fez o que planejou
fazer e ninguém chegou onde planejou chegar, a conclusão é que houve
fracasso. Mas por outro lado, isso pode ser bom, pois o fato de não chegar
onde se planejou chegar não significa necessariamente que se chegou a um
lugar pior, e aliás, acredito que sucesso não é necessariamente chegar no
lugar planejado, mas no melhor lugar possível. Ainda mais quando se acredita
que sucesso não é um lugar aonde se chega, mas um jeito como se vai.
A
pergunta é a seguinte: por que gastar dinheiro, tempo e gente para fazer um
planejamento de longo prazo, definindo o futuro onde se pretende chegar? Não
seria melhor descrever um futuro ideal e fazer planejamentos de curto prazo,
decidindo no meio do caminho, passo a passo, um dia de cada vez, de acordo
com as ameaças e oportunidades? Não seria melhor ter o futuro planejado como
referência, isto é, futuro ideal,
Ascensão e queda do planejamento estratégico
Henry
Mintzberg é, como dizem meus filhos, o cara. Ganhou das vezes o Prêmio
McKinsey, o Oscar da administração, conferido para os melhores artigos
publicados na Harward Business Review. É leitura obrigatória na literatura
de administração e gestão no mundo todo. Seu mais recente livro publicado em
português é Ascensão e queda do planejamento estratégico (Bookman,
2004), de onde tirei algumas idéias interessantes.
Mintzberg cita os planejadores que definem planejar como “ação traçada
antecipadamente” [pg. 22] e tentativa de “controlar o futuro”, isto é,
fazer um “projeto de um futuro desejado e de maneiras efetivas de
realizá-lo”.[pg.23] Mas em seguida cita também algumas anedotas a
respeito de alguns planejadores. Ackoff, por exemplo, escreveu em 1970, ano
da febre do planejamento estratégico: “perguntei a três executivos
corporativos quais decisões tinham tomado naquele ano que não teriam tomado
se não fosse o planejamento corporativo. Todos tiveram dificuldade em
identificar uma dessas decisões. Como cada um dos planos era secreto ou
confidencial, perguntei-lhes como os concorrentes poderiam tirar proveito da
posse de seus planos. Todos responderam com constrangimento que seus
concorrentes não se beneficiariam. Contudo, esses executivos eram fortes
defensores do planejamento corporativo”. [pg. 92]
Em 1977
foi divulgada a informação de que “nenhuma das cinco principais
corporações norte-americanas se engajava em planejamento estratégico de
verdade”. Após a crise de energia que afetou a Europa em 1973 um
executivo afirmou que “quem diz que faz planos e que eles funcionam é
mentiroso. O termo planejamento é imbecil; tudo pode mudar amanhã. A crise
mostrou que o planejamento de longo prazo é inútil”.[pg. 93]
Conclusão
Os
quatro modelos, ou gerações de planejamento, podem ser resumidos nas
expressões: [1] listas do que fazer; [2] metas e atividades; [3] prioridades
e controles, e [4] prioridades e princípios. Ainda que diferentes, visam a
mesma coisa: ajudar você a chegar onde deseja chegar.
Fiz uma
pesquisa entre pessoas próximas (confesso que não muitas) e constatei o que
já suspeitava: nenhuma delas jamais imaginou que suas vidas seriam o que
são. Em outras palavras, sua realidade de vida é bem diferente do que
qualquer planejamento que tivessem feito no passado. Mas estranhamente, isso
não significa que estas pessoas estão insatisfeitas com seu status atual, em
relação ao status imaginado tempos atrás. Isto é, elas chegaram onde não
imaginaram, mas não se julgam fracassadas nem estão frustradas com suas
vidas.
Minha
proposta, que chamo de 5a geração, é que você descreva seu futuro ideal e
use essa descrição como referência para suas decisões no dia-a-dia. Quer
saber como descrever seu futuro ideal? Aguarde. Meu futuro ideal contempla
escrever a respeito.
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