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Angústia é o estado
de quem está diante de “um afluxo incontrolável de excitações muito
variadas e intensas a que é incapaz de responder”; pelo menos foi o que
disse o Houaiss. Alma é o conjunto indissociável formado pelo corpo e
o espírito humano: pó da terra + fôlego da vida = alma vivente, conforme o
Gênesis, livro da Bíblia Hebraica que narra a origem da raça humana. As
angústias da alma implicam, portanto, um inevitável estado de excitamento
diante de incontáveis possibilidades, tanto para o corpo quanto para o
espírito: a dança da alma diante do efêmero e o eterno, o singelo e o
sublime, o animal e o divino, a terra e o céu, que se entrelaçam numa
unidade de mútua afetação, pois o que o corpo experimenta toca o espírito e
o que o espírito penetra faz tremer o corpo.
As
angústias da alma nos jogam de um lado para o outro e não sabemos se nos
basta um calmante ou uma oração, ou ambos. Não se sabe se o apelo vem da
imanência ou da transcendência. Não é possível distinguir o necessário: o
pão ou a providência, o aplauso ou o significado, o sexo ou o afeto, o
prazer ou o arrebatamento. Na verdade, não sabemos sequer se uns existem sem
os outros, ou, por exemplo, onde estará o afeto sem o toque, a providência
sem a mesa posta, a realização sem o reconhecimento, o significado sem a
aprovação, o êxtase sem a sensação. Pode o faminto experimentar a segurança;
a presença conviver com a solidão; o útil permanecer anônimo?
De
noite na cama, custo a pegar no sono, pois minha mente não para, meu corpo
não aquieta, meu espírito não silencia. O coração acelera, a criatividade
dispara, as preces se multiplicam. Outra noite percorri mentalmente, passo a
passo e em ritmo lento, os 10Km que percorro quase diariamente em minhas
corridas matinais no campus da Universidade de São Paulo (USP). Adormeci.
Meu exercício predileto, no entanto, é me imaginar andando sobre as nuvens,
calça larga e arregaçada de um algodão leve bege clarinho e um camisão tipo
bata, branco, escorrendo para fora da calça. Diante de mim um imenso arquivo
de madeira, branco patinado, com gavetas abertas e em cada gaveta uma
etiqueta com a inscrição de um objeto de minhas preocupações, ansiedades,
sonhos, responsabilidades e amores: uma gaveta para minha esposa, uma para
cada um dos meus filhos, minha mãe, meu trabalho, meus amigos, meu futuro, e
o paradoxo do mundo distribuído em incontáveis gavetas, que percorro
lentamente até mergulhar no sono. Caminho lentamente entre as nuvens, como
que flutuando, com o único esforço de fechar cuidadosamente cada gaveta,
num gesto de gratidão, devoção e consagração: fechar a gaveta é entregar
seu cuidado às mãos de Deus. Assim oro todas as noites. Assim vou
desacelerando a alma, diminuindo e cadenciando o coração, tratando cada
fantasia e administrando cada conflito... Assim oro todas as noites. E durmo
sem saber quais gavetas ficaram por fechar.
Mas a
cada manhã, com o sol, também se levanta minha alma. E com ela suas
angústias. E sobre tudo, a misericórdia e a bondade de Deus, que me seguem
todos os dias da vida. A alma angustiada retoma seu caminho, põe o pé na
estrada, mangas arregaçadas, até deitar-se à noite, com o coração batendo
acelerado, a mente rodando em velocidade incalculável e o esboço do dia
seguinte rabiscado na tela da madrugada. As gavetas estão todas abertas
novamente. E lá se vai o andarilho das nuvens, fechar uma por uma, de novo e
mais uma vez, até que as luzes se apagam. Todo dia, toda noite. Tudo jamais
igual.
Os
encontros e desencontros do dia estão nas primeiras gavetas: frases pela
metade, falas desconexas, palavras mal-ditas; vergonhas e virtudes; pessoas
– de perto, de longe, de sempre; tarefas inacabadas e projetos deflagrados;
mais vontades, mais planos, mais promessas, mais, e cada vez mais. Mas as
gavetas mais pesadas e difíceis de empurrar são as que carrego comigo
durante a caminhada diária. Pego cada uma delas todas as manhãs e as levo
para a luz do dia. Nem sempre consigo coloca-las no armário branco do chão
das nuvens, e quando ficam amontoadas ao pé da cama, são prenúncio de noites
mal dormidas. São estas as maiores angústias. E delas ainda não consegui me
livrar completamente. São três as gavetas pesadas: a gaveta da integridade,
da criatividade, e da legitimidade.
Minha
gaveta da integridade é muito pesada: o esforço sem tréguas, para preservar
o coração puro e as mãos limpas. Manter distantes coisas como a inveja, a
ganância e a cobiça; o ódio, a mágoa e o ressentimento; o cinismo, a
desesperança e a incredulidade; a preguiça, a indolência e a displicência; o
orgulho, a vaidade e a prepotência. Conviver com olhares, cartazes e
esbarrões; propostas, ofertas e insinuações; possibilidades, oportunidades e
devaneios; promessas, presentes e pretensões; notícias, informações e
presságios; eu, tu, eles – nós, todo dia, toda hora... viver é mesmo muito
perigoso, digo, maravilhoso.
A outra
gaveta, da criatividade, não pesa menos: o trabalho incessante para
conseguir “the master piece”, a obra prima, o grande feito, a grande
sacada, o grande insight, a tacada de mestre. Provavelmente isso tem
a ver com o anseio por relevância, aquela coisa de deixar um legado,
oferecer o melhor dos talentos e habilidades para o bem comum. Talvez, em
termos mais infantis ou egocêntricos mesmo, algo como escrever na porta do
banheiro do museu em New York “erk esteve aqui”. Que loucura isso de
desejar ser contado entre os gênios da raça... viver é mesmo muito
cansativo, digo, criativo.
A
última gaveta é mais uma idiossincrasia, uma encucação particular e bem
pessoal. Ou, quem sabe, coisa de consciências mais sensíveis. A meu
respeito, prefiro a primeira opção; concedo a segunda para pessoas como
você. Trata-se da gaveta da legitimidade. Advirto que somente pessoas que se
julgam privilegiadas têm que abrir e fechar esta gaveta – ou carregá-la. No
meu caso, sofro muito com ela. Desde sempre acredito que Deus marcou um “x”
nas minhas costas e colocou alguns anjos especiais no meu encalço. Tenho
mais do que preciso e, graças à bondade dos amigos e de pessoas que querem
demonstrar sua gratidão para comigo sem que eu nem mesmo saiba o que foi que
fiz, acessos que meu dinheiro jamais pagaria. Tenho uma vida boa e me
considero feliz e realizado. As coisas onde ponho a mão, geralmente dão
certo, e raramente ouço “não” como resposta (sim, é verdade, não peço
muito). O problema disso é que toda vez quando me dou conta da minha
bem-aventurança, lembro da desventura dos outros. Outro dia li que 7 dólares
prorrogam a vida de uma criança por uma semana em algum canto do terceiro
mundo. Pronto, já não consigo ir ao cinema sem considerar a legitimidade de
gastar para curtir o último do Shyamalan, regado à pipoca e chá gelado. A
questão é: num mundo de desigualdades e sociedades miseráveis, o que se pode
considerar um prazer legítimo? E me diga lá, por que minha vida – que já
foi, sim, tocada pela tragédia – é tão boa, enquanto a de outros – inclusive
os que eu amo – sofrem tanto? Enfim, uns com tanto, e outros com tão
pouco... viver é mesmo muito injusto, digo, gratificante.
Por
essas e outras é que minha alma vai dormir exausta. E haja gaveta pra
fechar... Por enquanto, sigo meu caminho sob o epitáfio da Olga Benário:
lutando pelo justo, pelo bom e pelo melhor do mundo.
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