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UMA COISA SÓ
As
pessoas compram uma coisa só. Não importa se compram um sapato, uma BMW ou
um ingresso para o teatro, estão comprando uma coisa só. Quem compra uma
caneta, uma camisa do seu time ou uma viagem para Nova York está comprando
uma coisa só. Os caras que estão tendo sucesso hoje descobriram isso. Os
profissionais mais bem remunerados do nosso mercado são aqueles que sabem
explorar esse fato. O que as pessoas estão comprando? Simples. Elas estão
comprando um estado de espírito, ou se você preferir, um sentimento. Isso
vale para quem vai ao estádio assistir um jogo de futebol, ao templo para
rezar, e ao shopping para dar uma volta no sábado à tarde.
A
grande jogada nessa transação chamada compra e venda é a sensação que as
pessoas experimentam durante a negociação. A grande sacada que mantém um
produto campeão de vendas é que ele consegue gerar no consumidor uma
sensação, um sentimento, um estado de espírito. Ninguém compra caneta apenas
para escrever, camisa apenas para cobrir o corpo, ou bolsa apenas para
carregar carteira e batom. E, diga a verdade, quando você sai do cinema do
mesmo jeito que entrou, sai resmungando que o filme foi uma porcaria. E é
exatamente por isso que você diminui a luz da sala e mete um smoth jazz
no fundo quando quer relaxar no final do dia. Mudar o estado de espírito,
mudar as sensações, gerar novas emoções, sentir alguma coisa, e de
preferência diferente do que esta que estou sentindo agora, pois senão eu
ficaria no mesmo lugar, ou não compraria o seu produto. Quer saber uma
coisa?, o maior benefício de um serviço ou produto não é que ele faz pelo
cliente, mas o que ele faz dentro do cliente. Sacou?
E
daí, o que é que eu tenho a ver com isso?, você diria. Bem, se você é
consumidor, fique esperto, porque os caras já te descobriram e cada dia
ficam sabendo mais coisas a seu respeito: o que você gosta e não gosta, o
que faz você chorar, o que te mete medo, e o que você precisa para assinar
aquele contrato. Até aí, nada de errado. Desde que você não esteja iludido
na transação, isto é, sendo manipulado sem saber. Quer pagar mais, pague.
Quer comprar aquela marca, compre. Mas não caia na esparrela de acreditar
que aquele algodão com cavalinho é necessariamente melhor do que os algodões
sem cavalinho.
Agora, se você é o vendedor, então, meu amigo, você tem que saber uma
coisinha a mais. O grande lance de uma venda não está apenas no estado de
espírito do consumidor, mas também e principalmente no coração do vendedor.
Em outras palavras, o ambiente da compra tem que estar alinhado com a
proposta emocional-passional do produto-serviço. É aquela coisa de careca
vendendo shampoo para queda de cabelo. O que a maioria dos vendedores
ainda não sacou é que vendedor de emoção sem emoção é tão ridículo quanto
gordo vendendo mais uma dieta revolucionária. Todo produto-serviço tem um
valor agregado. E o ambiente da transação de sua compra e venda deve
refletir esse valor. Ponto.
A
BOLA, A TRANSA E A VENDA
Fui fazer uma palestra para um grupo de atletas. Pedi que eles me
descrevessem uma bola feliz. Ficaram em silêncio, e então tentei ajudar,
pedindo que dissessem o que poderiam fazer com uma bola de futebol, além de
jogar futebol. Um deles disse que poderíamos usar a bola de banquinho,
sentando em cima dela. Boa. Outro sugeriu que a gente pode murchar a bola
para que ela sirva de peso para a porta não bater com o vento. Boa também.
Lá pelas tantas um garoto falou que a bola pode ser uma peça de museu, e
nesse caso a gente fica olhando para ela. Maravilhosa. Era tudo o que eu
precisava. Perguntei para eles se achavam que a bola do gol mil do Pelé era
uma bola feliz. A resposta veio de bate pronto, “Acho que ela foi feliz
no dia do gol mil, mas hoje, no museu, deve ser uma bola infeliz”.
Bingo. Minha palestra poderia terminar ali mesmo. A conclusão é óbvia:
uma bola feliz é uma bola em jogo. E por aí vai: uma pipa feliz é uma
pipa ao vento; um peão feliz é um peão girando; um bambolê feliz é um
bambolê bailando.
O gol é o orgasmo do
futebol,
disse Nelson Rodrigues. Mas o gol não é o todo do futebol. O gol, aliás, é o
fim do futebol. Cada vez que o gol acontece, começa tudo de novo. Que nem
orgasmo. O orgasmo é o fim da transa. Quando o orgasmo acontece, começa tudo
de novo (sabe lá depois de quanto tempo, mas começa!). O que quero dizer com
isso é que a bola não é feliz apenas quando estufa as redes em gol. Uma
bola feliz é uma bola em jogo. Uma espalmada de mão trocada, uma pancada de
três dedos no travessão, uma matada no peito do zagueiro. Imagino como era
feliz a bola enquanto Pelé olhava para ela e sussurrava segredos durante o
minuto de silêncio. Uma bola feliz é uma bola em jogo. E se o orgasmo está
no gol, a graça está no jogo. Assim como o ápice é o gozo, e o prazer é a
transa.
Compliquei? Calma lá. Ainda não. Essa era a diferença entre o Garrincha e os
caneleiros de plantão. O Garrincha gostava do gol, mas gostava também do
jogo. Não valia apenas empurrar para dentro do gol (sem trocadilhos), tinha
que ser por baixo das pernas do zagueiro (sem trocadilhos). Além do gol, o
jogo. E quanto mais prazeroso o jogo, mais arrebatador o gol. Assim é com a
transa, não é? E sabe de uma coisa, assim como tem gente que gosta de fazer
gol e não gosta de jogar, também tem gente que gosta de gozar mas não gosta
de transar. E mulher nenhuma (penso eu) gosta de transar com esse cara.
Tudo isso para dizer que todo produto tem um valor agregado. Todo ambiente
de compra e venda deve estar alinhado com o valor agregado do produto
negociado. O que determina o ambiente não é o fechamento da venda, mas sim o
processo da venda. Em tese, o que determina o gol é o jogo bem jogado; o que
determina o gozo, é a transa bem transada. E o que determina a venda, é o
processo bem negociado. E sabe o que é incrível nisso tudo? Tem gente que
gosta de vender mas não gosta de negociar. Não é vendedor, apenas trabalha
em vendas, e ninguém quer comprar dele. A graça não está apenas na
assinatura do contrato, mas em todo o processo de negociação: fazer conta de
cabeça, oferecer um café na hora certa, mudar de assunto e voltar ao prazo
depois de dois minutos, mostrar a foto mais uma vez, convidar o consumidor a
experimentar o produto, e assim vai, às vezes minutos, outras, horas, e quem
sabe, dias, meses e anos, até a assinatura do contrato.
OS
CAMPEÕES, OS RATINHOS E OS QUE DERAM CAMBALHOTA
Veja só. O cara entra na sua loja para comprar um carro, e do mesmo jeito
que ele vai ter orgulho em mostrar para o cunhado que comprou um GM, você
tem que ter orgulho de vender um GM. Produto: carro. Valor agregado:
esbanjar o cunhado. Alinhamento do ambiente: aquela cara de “você vai
abafar”.
Abre
paréntesis.
Perdoe o exemplo mesquinho, mas não me ocorreu nada melhor.
Fecha
paréntesis.
A
grande questão é como é que você consegue fazer aquela cara, isto é, alinhar
o valor do produto com o valor do processo de negociação, gerar o ambiente
de trabalho cheio de afeto, alegria e espontaneidade (ou sei lá que valores
a sua empresa tem). Conheço caminhos. O primeiro é o mais simples: você faz
isso naturalmente, por que você é desse jeito. Quer dizer, você não está
transando do jeito que a revista feminina ensinou, você está apaixonado;
você não está se movimentando em busca de espaço em campo, como o professor
mandou, você é craque; ou, no caso, você não apenas trabalha em vendas, você
é vendedor. Isso tem a ver com vocação, coisa de gente que diz “eu nasci
para isso”, “eu amo o que faço”, “não me imagino fazendo outra coisa”.
O
outro caminho, amigão, é treinamento. Que nem quando eu fui comprar um tênis
na loja recém inaugurada no Shopping. Enquanto falava comigo, a moça do
caixa era sorridente e atenciosa. Mas quando falava com a colega atrás do
balcão, era mal humorada e irritadiça. Perguntei pra ela quanto tempo durara
o treinamento. Quinze dias, foi a resposta. Saí de lá com a convicção
reforçada: em quinze dias você não consegue mais do que condicionar,
padronizar comportamentos, artificializar simpatias, colocar sorrisos de
plástico na cara dos outros.
O
caminho do treinamento tem suas variáveis: auto-ajuda, neuro-linguística,
conscientização. Mas a melhor prima irmã do treinamento é a motivação: doses
diárias, sistemáticas, de estímulos e encorajamentos. Funciona assim: no
início do dia você reúne sua equipe de vendas e dá uma dose de motivação na
veia de cada um dos seus valentes vendedores; depois, você faz algumas
promessas de recompensas; e depois coloca um catálogo bem bonito na mão
deles e anuncia sorridente que “a partir de hoje nossa empresa vai deixar
vocês estacionarem no subsolo, à sombra”. Depois disso, você solta os
ratinhos e fica esperando por eles com outro pedaço de queijo na manhã
seguinte. À medida que o resultado vai satisfazendo, você melhora o queijo.
E quando a coisa despencar, isto é, os ratinhos não obedecerem mais aos
mesmos estímulos, você substitui os ratinhos, é mais fácil, embora muito
mais caro.
A
VERDADE VERDADEIRA
Fala a verdade. A maioria das empresas que você conhece trabalha desse
jeito, não é ratinho? E eu já sei que você está louco para saber como sair
desse labirinto e descobrir a terceira via. Pois eu lhe digo já, sem mais
suspense. Caso você não seja um vocacionado quase naturalmente campeão, e
não agüente mais esta vida de porão e roda com giro falso, sua alternativa
libertadora é a autotransformação.
A
grande sacada, companheiro, é a seguinte: não importa tanto a qualidade do
seu produto se você não é capaz de envolver seu cliente no ambiente certo. A
verdade é que seu produto vai embalado não em papel, caixas ou ceras. Seu
produto vai embalado em estados de espírito, sensações e sentimentos. E você
tem que estar embalado nos mesmos moldes. E para estar embalado nos mesmos
moldes, você não pode fazer de conta, primeiro porque a maioria dos clientes
logo logo percebe, e depois porque cedo ou tarde você não vai agüentar
manter as aparências, o sorriso fingido vai desaparecer da sua cara, indo
direto para uma úlcera, ou coisa pior. Para embalar você, seu produto, seu
ambiente de trabalho, seus processos e seus relacionamentos, não há
substitutos para a autenticidade.
Não importa o que você faz. Importa o que você é. Fingir orgasmo é rota
suicida, e ninguém consegue fingir que é craque. No máximo, consegue fazer
um gol de placa, sem querer, na maior sorte, e depois “não vende nunca
mais”.
Entre o naturalmente feliz e o treinado para ser feliz, está a maioria dos
mortais, pessoas como eu e você, que convivem com o desafio da
autotransformação e da busca da felicidade. Uma felicidade não artificial,
que brota de dentro para fora.
Desculpa aí. Mas já falei demais e esse papo não tem fim. Não quero ensinar
um truque. Quero desmascarar alguns. Não quero apresentar uma nova técnica.
Quero convidar você a prosseguir numa grande aventura. A aventura de ser.
Ser, para poder vender. Ser, para poder viver. Nesse caso, amigão, se você
quer andar pelo caminho da autotransformação, você precisa mais do uma
palestra, um seminário ou um programa motivacional. Você precisa tomar uma
decisão. E depois colocar o pé na estrada, pois a viagem é longa e você não
vai chegar lá a menos que dê o primeiro passo. O primeiro passo? Jogar fora
os pacotes que venderam pra você. Já é um bom começo.
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