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- Chefe,
você não vai acreditar!
- Acreditar
em quê, Liza?
A Liza era a gerente de
Recursos Humanos. Era também nova na casa – havia iniciado na empresa cerca
de um mês antes da minha chegada. Sabia da minha imiente vinda como diretor
geral, e desde minha chegada estava sendo o meu principal apoio.
- estamos
quase vivendo uma guerra civil! O Palhares e a Maria de Lourdes estão
disputando um bife de frango a tapas!
- Chega
de brincadeira, Liza – agora não é hora
- Brincadeira,
não! Seria melhor se fosse! Saiba que um dos seus antecessores, o Ananias,
costumava comer um bife de frango todo dia no almoço, independentemente do
que havia no cardápio. E agora, ao ver que você não pede o seu bife de cada
dia, começaram a aparecer candidatos!
Esse era o clima reinante.
Um verdadeiro circo. O resultado prático que se tem quando se privilegia o
puxa-saquismo.
De um lado o Palhares se auto-proclamava o “dono do bife”, baseado
num “incontestável” argumento. Já que o Ananias era diretor financeiro, e já
que eu não exercia meu direito ao bife, era óbvio que o gerente financeiro
seria o próximo na linha de sucessão.
De outro lado a Maria de
Lourdes. Ela trabalhava na área de vendas e seus argumentos eram apenas a
pura e simples choradeira. Ela precisava. Não podia comer carne vermelha.
Queria. Ah.... deeeeixa, vaaaaai.... deeeixa o bife pra miiiiiiiiiiiiim....
Creio que num determinado
momento a Liza teve a percepção de que eu estava prestes a matar alguém e
resolveu o assunto. Jamais fiquei sabendo qual foi o fim do bife.
Realmente havia algo que
me fazia esquecer um pouco minhas mazelas no trato e na negociação de poder
e autoridade com a família proprietária da empresa. Afinal eu era o diretor
contratado que teria de mudar as rotinas que eles mesmo haviam permitido
existir. Jamais poderia supor o quanto de diversão me estava reservado ao
lidar com os mais hilariantes casos. O que acabei achando na empresa, que
aqui chamo de “Ceplasa”, merece ser relatado.
Quer conhecer outras
histórias? E creia-me... ver-da-dei-ras? Eram elefantes trepados em árvores,
tentando piar feito sabiás (entenda melhor por
outro artigo, clicando aqui). Veja só:
A
pizza de domingo
Nada mais normal do que
achar no histórico dos gastos a conta da pizzaria do diretor, certo? Que
clientes, que nada! Todo santo domingo o Ananias reunia toda sua família –
mulher, filhos, genros, agregados – para uma pizza. Paga integral e
fielmente pela Ceplasa. Ninguém ousava questionar, mas diziam nos corredores
que esta concessão teria sido feita pelo próprio Pereira – o dono, o
fundador - quando ainda vivo. Teria dado o prêmio para o Ananias logo após
uma boa ação. E ele jamais abrira mão de exercer este direito adquirido.
Tampouco os filhos do Pereira ousaram desfaze-lo.
Os carros de frota
Quem deve controlar os
carros de frota na empresa? O RH? Serviços Gerais? Administração? Que
nada... Na Ceplasa a criatividade deu uma ótima solução! Mandava na frota
quem sabia mais de mecânica! Claro! E quem sabia mais? O Jurandir, gerente
de vendas! Simples. Não importava onde estivesse o Jurandir. Não importava
se ficasse mais tempo fora da empresa em visita a clientes. As autorizações
para uso dos carros eram dadas por ele. Ele sabia que carro seria melhor
para que motorista. Enfim, o cúmulo.
Ah, claro.... como
esquecer? Os amigos do Jurandir gozavam obviamente de certas benesses. Era
interessantíssimo notar que nunca ficava um carro de frota durante o fim de
semana. Num dos memoráveis exemplos, a Maria de Lourdes saiu com um deles
para “visitar um cliente” numa 6a. feira às 16 horas. Ela e o
carro só voltaram na 2a. feira s 8:30 horas. Mas o carro rodou
1.200 km. Lindo, não?
Sua majestade, o representante
Está aí uma raça que
desperta as mais diversas reações: representantes de vendas. Ora amados, ora
odiados. Ora são a salvação da lavoura, ora são aqueles aproveitadores que
nada fazem e só vem aqui receber suas polpudas comissões.
Na Ceplasa não era
diferente. Mas saltava aos olhos o quanto os caras mandavam. Mandavam mais
que os donos. O resultado de anos de uma política comercial ora ausente, ora
inconstante. Com o tempo certos representantes passaram a exigir mais e
mais. Alguns usavam funcionários da empresa como se fossem seus. Pagava-se
fortunas de ligações a cobrar, já que representante algum pagaria suas
próprias ligações. E quem ousaria dizer não a um fulano que traz pedidos tão
grandes?
Planejamento estratégico pela bola de cristal
Descobrí que havia planos
de mudar o nome da Ceplasa. Por que? Porque o novo nome deveria ter uma
pulsação adequada pelos caminhos da numerologia. E mais: o contrato social
deveria ser assinado num horário determinado, para que a conjunção
planetária permitisse um bom mapa astral. Tudo por conta do gerente de
marketing que havia saído poucos dias antes da minha chegada. Pelo que se
descrevia era uma cara zen, todo telúrico, cheio das manias de acender
incenso na sala, colecionar cristais, etc, etc. Imagine se a concorrência
fica sabendo? Já pensou se o mercado começa a dizer que o planejamento
estratégico da empresa é feito pela Mãe Dinah?
Quer fazer uma boquinha?
Veja se não é normal.
Qualquer um dos 30 e poucos funcionários do turno da noite poderia ter fome
lá pelas tantas. Caso isto ocorresse, bastaria que fossem ao restaurante,
que fossem à cozinha, e lá abrissem a geladeira e fritassem uns bifes,
preparassem o que quisessem. No dia seguinte a empresa contratada (ah, sim,
o restaurante era terceirizado!) fazia com urgência as compras necessárias
para repor os estoques. E emitiam faturas extras toda semana, é claro.
Dando de comer às
nações...
Algo realmente admirável.
Como o restaurante de uma empresa com 100 funcionários servia ora 110, ora
120 ou 130 refeições diárias? Explicação fácil: qualquer um que ali quisesse
comer o fazia. Gratuitamente. Caminhoneiros, entregadores, acompanhantes dos
caminhoneiros. E a empresa contratada, obviamente, utilizava estes fatos
como argumento para mais algumas faturas extras. O que mais assustava não
era só o descontrole, mas o perigo. O restaurante ficava no meio da fábrica,
e não era incomum ver crianças pequenas – filhos de caminhoneiros – dando
uma voltinha pelo meio dos equipamentos. Sem monitoração, sem controle.
Perigoso? Pense na presença de alguns produtos químicos na cena! Perigoso?
Não! Inconcebível!
O
fantasma do feitor de escravos
Claro que todas estas
operações eram feitas com o conhecimento “dos hóme”. Príncipio instituído
pelo Pereirão e mantido pelos Pereirinhas: jamais deixemos de ter boas
relações com “o poder”.
Por conta disso, o ex-chefe do departamento pessoal – o Alencar – havia sido
senhor absoluto da situação por muito tempo. Quando lá cheguei ele já havia
se aposentado e sido substituído pela Liza. Mas contavam-se muitas a
respeito dele. Não cheguei a conhecê-lo mas, pelas evidências que deixou,
chego a ter dúvidas se o cara chegou a ser alfabetizado. Mas quem precisava
de algum recheio entre as orelhas quando se era sobrinho de general? E se o
tio tivesse um sobrenome daqueles que haviam habitado por uns tempos os
palácios de Brasília melhor, não? Enfim, o Alencar era o típico feitor de
escravos. O fiel escudeiro do grande senhor das terras sempre disposto a
fazer qualquer serviço sujo para que o patrão não sujasse as mãos. Era
daqueles que achava que chamar o bom e velho DP de RH não passava de
frescura dos tempos modernos.
Microcomputador? Ora, não me venha com essa! Carro de frota com injeção
eletrônica? De jeito nenhum!!! Como abrir mão da confiabilidade do bom e
velho carburador! Essa molecada de hoje! Carro de gerente com vidro
elétrico? Jaaaaamaaaaisssss!!! Vai que o Seu Pereira pega um desses carros e
o vidro pifa? Além do que custa muito mais caro que manivela, ora!
Enfim, era um verdadeiro
poço de modernidade. Resolvia tudo com seus bilhetinhos. E com o sobrenome,
claro. Por isso, tudo podia – ou achava que podia.
Claro que uma coisa dessas só poderia estar em um livro de ficção
empresarial. Onde é que já se viu algo assim ser feito no Brasil?
Tudo isso, e algumas coisas mais, me fizeram aprender uma lição
inesquecível. Para quem havia vivido boa parte de sua vida em multinacionais
de porte, com seus relatórios gerenciais em moeda local e em dólar, aprendí
que as empresas familiares operam com mais um tipo de moeda.
Qual é? O Favor. Símbolo
F$.
Mas isso é assunto para o próximo artigo.
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