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Ha-ja sa-co!
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era o clima reinante. Um verdadeiro circo. O resultado prático que se tem quando se privilegia o puxa-saquismo.
Realmente havia algo que me fazia esquecer um pouco minhas mazelas no trato e na negociação de poder e autoridade com a família proprietária da empresa. Afinal eu era o diretor contratado que teria de mudar as rotinas que eles mesmo haviam permitido existir. Jamais poderia supor o quanto de diversão me estava reservado ao lidar com os mais hilariantes casos. O que acabei achando na empresa, que aqui chamo de Ceplasa”, merece ser relatado.
Quer conhecer outras histórias? E creia-me... ver-da-dei-ras? Veja só:
 

Carlos Sider é engenheiro químico e administrador de empresas. Tem atuado por muitos anos como executivo contratado por empresas como Bunge, Rhodia, Tintas Coral, Eternit, no Brasil e no exterior, e nos últimos 9 anos como principal executivo. Atualmente é o CEO da Konzept para a América Latina.


      - Chefe, você não vai acreditar!
      - Acreditar em quê, Liza?

A Liza era a gerente de Recursos Humanos. Era também nova na casa – havia iniciado na empresa cerca de um mês antes da minha chegada. Sabia da minha imiente vinda como diretor geral, e desde minha chegada estava sendo o meu principal apoio.

      - estamos quase vivendo uma guerra civil! O Palhares e a Maria de Lourdes estão disputando um bife de frango a tapas!
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 Chega de brincadeira, Liza – agora não é hora
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 Brincadeira, não! Seria melhor se fosse! Saiba que um dos seus antecessores, o Ananias, costumava comer um bife de frango todo dia no almoço, independentemente do que havia no cardápio. E agora, ao ver que você não pede o seu bife de cada dia, começaram a aparecer candidatos! 

Esse era o clima reinante. Um verdadeiro circo. O resultado prático que se tem quando se privilegia o puxa-saquismo.

De um lado o Palhares se auto-proclamava o “dono do bife”, baseado num “incontestável” argumento. Já que o Ananias era diretor financeiro, e já que eu não exercia meu direito ao bife, era óbvio que o gerente financeiro seria o próximo na linha de sucessão.

De outro lado a Maria de Lourdes. Ela trabalhava na área de vendas e seus argumentos eram apenas a pura e simples choradeira. Ela precisava. Não podia comer carne vermelha. Queria. Ah.... deeeeixa, vaaaaai.... deeeixa o bife pra miiiiiiiiiiiiim....

Creio que num determinado momento a Liza teve a percepção de que eu estava prestes a matar alguém e resolveu o assunto. Jamais fiquei sabendo qual foi o fim do bife.

Realmente havia algo que me fazia esquecer um pouco minhas mazelas no trato e na negociação de poder e autoridade com a família proprietária da empresa. Afinal eu era o diretor contratado que teria de mudar as rotinas que eles mesmo haviam permitido existir. Jamais poderia supor o quanto de diversão me estava reservado ao lidar com os mais hilariantes casos. O que acabei achando na empresa, que aqui chamo de “Ceplasa”, merece ser relatado.

Quer conhecer outras histórias? E creia-me... ver-da-dei-ras? Eram elefantes trepados em árvores, tentando piar feito sabiás (entenda melhor por outro artigo, clicando aqui). Veja só:

A pizza de domingo

Nada mais normal do que achar no histórico dos gastos a conta da pizzaria do diretor, certo? Que clientes, que nada! Todo santo domingo o Ananias reunia toda sua família – mulher, filhos, genros, agregados – para uma pizza. Paga integral e fielmente pela Ceplasa. Ninguém ousava questionar, mas diziam nos corredores que esta concessão teria sido feita pelo próprio Pereira – o dono, o fundador - quando ainda vivo. Teria dado o prêmio para o Ananias logo após uma boa ação. E ele jamais abrira mão de exercer este direito adquirido. Tampouco os filhos do Pereira ousaram desfaze-lo.

Os carros de frota

Quem deve controlar os carros de frota na empresa? O RH? Serviços Gerais? Administração? Que nada... Na Ceplasa a criatividade deu uma ótima solução! Mandava na frota quem sabia mais de mecânica! Claro! E quem sabia mais? O Jurandir, gerente de vendas! Simples. Não importava onde estivesse o Jurandir. Não importava se ficasse mais tempo fora da empresa em visita a clientes. As autorizações para uso dos carros eram dadas por ele. Ele sabia que carro seria melhor para que motorista. Enfim, o cúmulo.

Ah, claro.... como esquecer? Os amigos do Jurandir gozavam obviamente de certas benesses. Era interessantíssimo notar que nunca ficava um carro de frota durante o fim de semana. Num dos memoráveis exemplos, a Maria de Lourdes saiu com um deles para “visitar um cliente” numa 6a. feira às 16 horas. Ela e o carro só voltaram na 2a. feira s 8:30 horas. Mas o carro rodou 1.200 km. Lindo, não?

Sua majestade, o representante

Está aí uma raça que desperta as mais diversas reações: representantes de vendas. Ora amados, ora odiados. Ora são a salvação da lavoura, ora são aqueles aproveitadores que nada fazem e só vem aqui receber suas polpudas comissões.

Na Ceplasa não era diferente. Mas saltava aos olhos o quanto os caras mandavam. Mandavam mais que os donos. O resultado de anos de uma política comercial ora ausente, ora inconstante. Com o tempo certos representantes passaram a exigir mais e mais. Alguns usavam funcionários da empresa como se fossem seus. Pagava-se fortunas de ligações a cobrar, já que representante algum pagaria suas próprias ligações. E quem ousaria dizer não a um fulano que traz pedidos tão grandes?

Planejamento estratégico pela bola de cristal

Descobrí que havia planos de mudar o nome da Ceplasa. Por que? Porque o novo nome deveria ter uma pulsação adequada pelos caminhos da numerologia. E mais: o contrato social deveria ser assinado num horário determinado, para que a conjunção planetária permitisse um bom mapa astral. Tudo por conta do gerente de marketing que havia saído poucos dias antes da minha chegada. Pelo que se descrevia era uma cara zen, todo telúrico, cheio das manias de acender incenso na sala, colecionar cristais, etc, etc. Imagine se a concorrência fica sabendo? Já pensou se o mercado começa a dizer que o planejamento estratégico da empresa é feito pela Mãe Dinah?

Quer fazer uma boquinha?

Veja se não é normal. Qualquer um dos 30 e poucos funcionários do turno da noite poderia ter fome lá pelas tantas. Caso isto ocorresse, bastaria que fossem ao restaurante, que fossem à cozinha, e lá abrissem a geladeira e fritassem uns bifes, preparassem o que quisessem. No dia seguinte a empresa contratada (ah, sim, o restaurante era terceirizado!) fazia com urgência as compras necessárias para repor os estoques. E emitiam faturas extras toda semana, é claro.

Dando de comer às nações...

Algo realmente admirável. Como o restaurante de uma empresa com 100 funcionários servia ora 110, ora 120 ou 130 refeições diárias? Explicação fácil: qualquer um que ali quisesse comer o fazia. Gratuitamente. Caminhoneiros, entregadores, acompanhantes dos caminhoneiros. E a empresa contratada, obviamente, utilizava estes fatos como argumento para mais algumas faturas extras. O que mais assustava não era só o descontrole, mas o perigo. O restaurante ficava no meio da fábrica, e não era incomum ver crianças pequenas – filhos de caminhoneiros – dando uma voltinha pelo meio dos equipamentos. Sem monitoração, sem controle. Perigoso? Pense na presença de alguns produtos químicos na cena! Perigoso? Não! Inconcebível!

O fantasma do feitor de escravos

Claro que todas estas operações eram feitas com o conhecimento “dos  hóme”. Príncipio instituído pelo Pereirão e mantido pelos Pereirinhas: jamais deixemos de ter boas relações com “o poder”.

Por conta disso, o ex-chefe do departamento pessoal – o Alencar – havia sido senhor absoluto da situação por muito tempo. Quando lá cheguei ele já havia se aposentado e sido substituído pela Liza. Mas contavam-se muitas a respeito dele. Não cheguei a conhecê-lo mas, pelas evidências que deixou, chego a ter dúvidas se o cara chegou a ser alfabetizado. Mas quem precisava de algum recheio entre as orelhas quando se era sobrinho de general? E se o tio tivesse um sobrenome daqueles que haviam habitado por uns tempos os palácios de Brasília melhor, não? Enfim, o Alencar era o típico feitor de escravos. O fiel escudeiro do grande senhor das terras sempre disposto a fazer qualquer serviço sujo para que o patrão não sujasse as mãos. Era daqueles que achava que chamar o bom e velho DP de RH não passava de frescura dos tempos modernos.
Microcomputador? Ora, não me venha com essa! Carro de frota com injeção eletrônica? De jeito nenhum!!! Como abrir mão da confiabilidade do bom e velho carburador! Essa molecada de hoje! Carro de gerente com vidro elétrico? Jaaaaamaaaaisssss!!! Vai que o Seu Pereira pega um desses carros e o vidro pifa? Além do que custa muito mais caro que manivela, ora!

Enfim, era um verdadeiro poço de modernidade. Resolvia tudo com seus bilhetinhos. E com o sobrenome, claro. Por isso, tudo podia – ou achava que podia.


Claro que uma coisa dessas só poderia estar em um livro de ficção empresarial. Onde é que já se viu algo assim ser feito no Brasil?

Tudo isso, e algumas coisas mais, me fizeram aprender uma lição inesquecível. Para quem havia vivido boa parte de sua vida em multinacionais de porte, com seus relatórios gerenciais em moeda local e em dólar, aprendí que as empresas familiares operam com mais um tipo de moeda.

Qual é? O Favor. Símbolo F$.

Mas isso é assunto para o próximo artigo.
 


 




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