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Será que o Cidão foi mesmo extinto?
No tempo dele, e lá se vai um bom tempo, contabilista levava o nome de guarda-livros. Era curso técnico, feito junto com o colegial. O dele havia sido feito lá no bairro da Moóca, em São Paulo. Depois entrou na vida. Nada desse negócio de faculdade. A dele era a faculdade da vida.
Assim era o “Cidão”, ou como eu deveria chama-lo, “Dr. Alcides”. Afinal, lá pelos idos dos anos 80 eu ainda era um engenheirinho recém-formado, e como diziam, o Cidão tinha bronca de quem vinha da faculdade para a empresa. Eram os engomadinhos, a molecada, os “dotozinhos”, os bacharéis, etc, etc. Para ele o valor estava em galgar os caminhos no dia a dia, aprendendo com o umbigo no balcão. Faculdade, quando muito, à noite, enquanto se trabalhava de dia.

Carlos Sider é engenheiro químico e administrador de empresas. Tem atuado por muitos anos como executivo contratado por empresas como Bunge, Rhodia, Tintas Coral, Eternit, no Brasil e no exterior, e nos últimos 9 anos como principal executivo. Atualmente é o CEO da Konzept para a América Latina.


No tempo dele, e lá se vai um bom tempo, contabilista levava o nome de guarda-livros. Era curso técnico, feito junto com o colegial. O dele havia sido feito lá no bairro da Moóca, em São Paulo. Depois entrou na vida. Nada desse negócio de faculdade. A dele era a faculdade da vida.

Assim era o “Cidão”, ou como eu deveria chama-lo, “Dr. Alcides”. Afinal, lá pelos idos dos anos 80 eu ainda era um engenheirinho recém-formado, e como diziam, o Cidão tinha bronca de quem vinha da faculdade para a empresa. Eram os engomadinhos, a molecada, os “dotozinhos”, os bacharéis, etc, etc. Para ele o valor estava em galgar os caminhos no dia a dia, aprendendo com o umbigo no balcão. Faculdade, quando muito, à noite, enquanto se trabalhava de dia.

O Cidão era um dos funcionários mais antigos. Havia começado como auxiliar de contabilidade, no tempo em que lançamento contábil era feito em fichas de cartolina, e livro-caixa era livro mesmo, nada dessas frescuras de hoje computadorizadas, quando muito só impressas para atender o fisco. Sua dedicação às rotinas o levou a passar por vários setores: contabilidade, tesouraria, contas a pagar, contas a receber, etc. Teve suas passagens pelo DP (departamento pessoal) e por Compras, até ser indicado à posição de Gerente Financeiro da empresa. Foi a glória.

Mas o Cidão também era conhecido por suas manias um tanto retrógradas. Ele era eficiente, é certo. Um verdadeiro leão de chácara do dinheiro da empresa. Mas, meu velho, a que custo!

Certa vez, foi alardeado por todos o entrevero que ele teve com a Cíntia, a psicóloga do setor de Recrutamento & Seleção na hora de contratar um novo Chefe de Tesouraria. Ela havia separado vários currículos, tomando por base formação, experiência, perfil profissional, idiomas, conhecimento e habilidades de informática. Mas o Cidão devolveu a todos. O que ele queria? Não queria saber de ninguém com faculdade (custavam caro demais e eram muito teóricos). Queria saber se o fulano sabia fazer um lançamento contábil. Idiomas? Para quê? Informática? Pura frescura! Bastava que soubesse como usar uma calculadora Facit daquelas de manivela. Tanto fez e tanto chiou que contratou o Paranhos, seu fiel escudeiro a partir de então.

Outra coisa peculiar era a rotina do Cidão, acompanhado de seu séquito. Todos os seus subordinados diretos tinham de almoçar juntos, na mesma hora. E depois do almoço davam uma volta pelo jardim, vestidos em suas calças de tergal xadrez sem bolso, palitando os dentes e com a laranja da sobremesa nas mãos, para chupar mais tarde, um pouco antes do café. Era o “retrato da modernidade”, mesmo para a época.

Mas os Cidões, como se sabe, entraram em processo de extinção. O mercado começou a incentivar a proliferação de seus predadores naturais: computadores, sistemas de custeio, contabilidade em diferentes moedas, etc, etc. Mas o golpe final mesmo veio com o surgimento do controller. Quando o Cidão soube da associação da empresa com uma outra americana, e que o setor dele ia ser subordinado de um gringo que nem falava português e que ia passar a se chamar “controladoria”, enfartou. Acabou se recuperando, mas viu que era hora de parar. Aposentou-se.

Mas o Paranhos e os outros subordinados do Cidão não tiveram a mesma sorte. Como ainda não tinham como vestir o pijama, bem que tentaram acompanhar a nova onda. Fizeram seus cursos de computação, tentaram se modernizar. Tentaram, tentaram, mas ficaram no caminho. Foram sendo gradativamente substituídos, justamente por aqueles “dotozinhos” teóricos que falavam inglês.

Recentemente encontrei o Paranhos. Depois de 25 anos, de muitas idas e vindas, está agora trabalhando como comprador numa empresa familiar. Não tem e-mail, não gosta de computador. Permite-se, quando muito, receber propostas por fax. Seu carro é dos antigos, com carburador e vidros que abrem na manivela, pois essas tranqueiras eletrônicas podem pifar. E como comprador, convidou nossa empresa para oferecer uma proposta de serviços.

No dia da entrega da proposta, acompanhei o vendedor, em consideração ao Paranhos e aos bons tempos. Chegamos pouco antes das 14hs, e ainda esperávamos na recepção quando o vimos, vindo do restaurante da empresa, palitando os dentes e com uma laranja na mão.

Quem disse que os Cidões foram extintos? 

 




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