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Marinês & Suely
O diálogo das
duas era mais ou menos este. Diálogo, ou melhor, quase que um monólogo da
Marinês:
- é um “bissurdo” mesmo! O Antunes sabe que eu carrego aquele
departamente nas costas. Sou eu que faço a folha de pagamento. Sou eu que
faço o levantamento dos cartões de ponto. Sou eu que resolvo os problemas
com a assistência médica, que calculo as férias de todo mundo, você sabe,
né...
- ahan – limitava-se a responder a Suely, diante do que a Marinês
seguia animada:
- mas, quer ver maior “bissurdo”? Agora que ele comprou um “noutebuqui”
novo pra ele, sabe pra quem ele deu o antigo? Pra aquela “piranha” da
secretária dele – a Vanessa - que nem digitar sabe. E eu tenho que fazer
todo o serviço com aquela coisa pre-histórica...
- que “bissurdo”, Marinês!
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Carlos Sider é
engenheiro químico e administrador de empresas. Tem atuado por muitos anos
como executivo contratado por empresas como Bunge, Rhodia, Tintas Coral,
Eternit, no Brasil e no exterior, e nos últimos 9 anos como principal
executivo. Atualmente é o CEO da Konzept para a América Latina. |
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Veja se você também
não as conhece.
Outro dia meu caminho se cruzou com o delas. Estava num restaurante perto do
meu escritório e acabei me sentando vizinho da mesa delas. Claro que não
fiquei sabendo o nome real das minhas vizinhas de mesa, mas me lembraram
esta dupla incrível, presente em todos os ambientes empresariais.
O diálogo das duas era mais ou menos este. Diálogo, ou melhor, quase que um
monólogo da Marinês:
- é um “bissurdo” mesmo! O Antunes sabe que eu carrego aquele
departamente nas costas. Sou eu que faço a folha de pagamento. Sou eu que
faço o levantamento dos cartões de ponto. Sou eu que resolvo os problemas
com a assistência médica, que calculo as férias de todo mundo, você sabe,
né...
- ahan – limitava-se a responder a Suely, diante do que a Marinês
seguia animada:
- mas, quer ver maior “bissurdo”? Agora que ele comprou um “noutebuqui”
novo pra ele, sabe pra quem ele deu o antigo? Pra aquela “piranha” da
secretária dele – a Vanessa - que nem digitar sabe. E eu tenho que fazer
todo o serviço com aquela coisa pre-histórica...
- que “bissurdo”, Marinês!
- é mesmo. É o fim. Ah, e tem mais. Sabe o temporal
da semana passada. Queimou a placa de rede do meu micro. Travou todo o meu
serviço.
- e
aí?
- fui até o Antunes pedir pra usar o “noutebuqui”. Você precisa ver a cara
que a Vanessa fez. Disse que não dava, que isso, que aquilo...
- e então?
– seguia a Suely instigando monossilabicamente a Marinês
- ah, acabei saindo da sala e fui me virar sozinha. Chamei o
técnico e ele consertou meu micro velho... Mas não sei mais o que fazer...
Que você acha, Suely?
- não sei... acho que você deveria procurar o Antunes e resolver...
A Marinês típica é aquela trabalhadora convicta de que é o centro do
universo do escritório. Tudo depende dela, tudo passa por ela, tudo o que
ela faz tem uma importância incalculável. Até que trabalha direito, mas
entende tudo como pessoal. Tem lá seus traumas íntimos (pois em geral a
Marinês típica não foi brindada com dotes físicos destacáveis, ou usa
óculos, ou é muito magra ou é muito gorda, ou tem um nariz isso ou aquilo,
coisas assim) e assume a incumbência de lutar contra as injustiças que lhe
fazem. Outra coisa, a Marinês típica confia demais nas Suelys da vida.
Suelys não necessariamente precisam ser trabalhadoras ou eficientes.
Tampouco são modelos estéticos de destaque. Mas são observadoras
impressionantes. Sacam rapidinho quem é quem nas preferências do chefe,
sacam também facilmente a escala real de valores que norteia as decisões de
todos, inclusive as do chefe, e do chefe do chefe, do gerente, do diretor,
de quem interessar. São em geral bem resolvidas, pois não se envolvem nas
briguinhas bestas do dia a dia. E sabem ouvir como ninguém. Emprestam seu
ouvido para servir de penico para quem quiser. Usam estas conversas como
fonte de informação. E, mesmo em silêncio, conduzem a conversa.
A Marinês trabalha; a Suely observa. A Marinês quer falar? A Suely sugere
almoçarem fora, para terem mais liberdade. A Marinês fica indignada e se
descabela; a Suely não está nem aí, mas dá corda. Enquanto a Marinês perde a
fome no meio da salada, a Suely come a sobremesa. A Marinês se desnuda
diante da “amiga”, e então a Suely sugere um “modelito básico”. A primeira
sai de alma lavada, grata pela ajuda. A segunda, ora... depende de como e
quando ela vai precisar usar o favor que a outra agora lhe deve.
Todas as empresas precisam da Marinês, pois ela carrega as pedras da
pedreira. Só que as Suelys estão lá para dizer onde coloca-las. A Marinês
se preocupa com “o direito de usar” um “noutebuqui” de segunda-mão, e
seu sonho de promoção é virar secretária e poder trabalhar numa sala com ar
condicionado. Já a Suely não está nem um pouco preocupada. Seu sonho é a
gerência, e para isso ela já age com os olhos neste futuro.
Conhecí a primeira dupla Marinês-Suely há mais de 20 anos. A Suely hoje é
diretora geral de uma empresa concorrente da primeira onde trabalhou. A
Marinês foi a primeira secretária da Suely assim que virou gerente, mas
acabou pedindo a conta quando casou com o Rogério, o encarregado da fábrica.
Hoje, com 3 filhos adolescentes, ela conseguiu um emprego de meio-período no
cartório do bairro onde mora.
Fico pensando qual será o futuro dessas duas que conhecí há pouco...
Bem vindo ao circo da vida empresarial!
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