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Esta é uma história verídica, que me foi
contada anos atrás por um herdeiro-empresário. Não, não era o caso de
chama-lo de empresário, nem de empresário-herdeiro. Era um autêntico caso de
alguém que só é chamado empresário porque herdou negócios do pai. E não
fazia jus a herança. Esse era o caso do aqui chamado Juninho, filho mais
velho do Pereira. E irmão do Toninho e Lucinda, seus co-herdeiros e
parceiros nas trapalhadas empresariais.
Conhecí esta família
enquanto eles atuavam como dublês de empresários. Sorte deles que a herança
deixada pelo pai era suficientemente grande para não comprometer o “padrão
de vida” com o qual estavam acostumados.
No fundo, no fundo, embora
já falecido, o pai era, de fato e de direito, o verdadeiro culpado por toda
aquela encrenca. Por que?
O Pereira havia criado
seus filhos longe da vida real. Como todo bom empresário trabalhava 24 horas
por dia. Dedicava-se totalmente aos negócios, já que a função primária do
pai era trazer para casa os recursos que encheriam a geladeira, que pagariam
as contas, que custeariam a educação das crianças. E quanto maiores os
recursos, maior o sucesso do pai, certo?
Era o Pereira nas
empresas. E os filhos na escola. O pai lá. Os filhos cá. E um pai
relativamente ausente, mas dando de tudo o que os filhos precisavam, e um
pouco mais.
Entretanto, na fase de
vida que se viam agora obrigados a enfrentar, a família Pereira vivia uma
crise. Os negócios iam mal. Era hora de enfrentar a realidade e cortar
gastos, tomar decisões drásticas. Eu havia sido chamado como consultor para
ajudar neste processo.
Mas o maior empecilho estava justamente nos Pereira. Como alguém se atrevia
a faze-los baixar o padrão?
Uma das coisas que acabei conhecendo, contada pelo próprio Juninho, revelava
um pouco do ambiente em que foram criados e o padrão de valores a que
estavam sumetidos.
O
sonho de andar de Kombi
Corria a década de 60 no
Brasil. A maioria dos poucos que tinham carro andava de Volkswagen, o velho
Fusca. Não que fosse o preferido das multidões, mas era quase que a única
opção. Mas os Pereira eram diferentes. Não eram multidão. Eram a minoria. As
viagens que faziam de lá para cá, da cidade para a praia e da praia para a
cidade eram feitas de Ford Galaxie, com ar condicionado e direção
hidráulica. O pai na frente, ao lado do motorista, e a molecada atrás, junto
com a mãe, todos sentados naquele bancão que mais parecia um sofá. E quando
iam para a praia passar uns dias a formação era o Galaxie na frente, e uma
Kombi seguindo atrás, dirigida pelo mordomo, levando as bagagens e a
empregada, a cozinheira, todo mundo.
Mas – como me contou o
Juninho – o sonho da molecada era poder ir um dia lá na Kombi. Afinal, carro
com três bancos era diferente. Além do que a ausência do pai e da mãe
prometia uma maior liberdade para uma bagunça legal.
Tanto insistiram que um
dia o Pereira-Pai acabou concordando. Deixou o Juninho e o Toninho viajarem
na Kombi. A coitada da Lucinda ficou no Galaxie. Mas o sonho da bagunça
mostrou-se insuficiente. Poucos quarteirões adiante o mordomo teve de meter
a mão na buzina e pedir uma parada técnica para que os meninos voltassem
para o Galaxie.
Ninguém havia avisado a
eles que a Kombi não tinha ar condicionado!
Seria até cômico se não
fosse verdadeiro e trágico.
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