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La Femme Lucimar
...ninguém conseguia nada com o Torquato sem antes ter a benção da Lucimar. Bastava sentar na frente dela e falar um pouco do assunto. Se ela se empolgasse, ponto. Se ela se desinteressasse ou fizesse uma cara de desaprovação, era melhor não insistir. Contava-se que os que tentaram pagaram caro. A mulher mandava em todo mundo. Até assinava os cheques, fazendo a assinatura por extenso: Ermenegildo Torquato de Oliveira. O Torquato é que parecia sofrer para acertar sua própria assinatura. Era amigaça da mulher do Torquato e conselheira dos filhos adolescentes dele. Coisa de louco!

Carlos Sider é engenheiro químico e administrador de empresas. Tem atuado por muitos anos como executivo contratado por empresas como Bunge, Rhodia, Tintas Coral, Eternit, no Brasil e no exterior, e nos últimos 9 anos como principal executivo. Atualmente é o CEO da Konzept para a América Latina.


Conhecí a Lucimar há alguns anos. O nome é fictício, claro, mas pela descrição você verá que ela não é única. Lucimares integram há muito a “fauna corporativa” das empresas brasileiras.

Assim que comecei a trabalhar na empresa fui logo sendo avisado. “Olha, por aqui, manda quem pode, obedece quem tem juízo. E antes que você ache que quem pode é o Torquato, abra os olhos com a Lucimar”. Mas antes que eu pudesse esboçar qualquer pedido de explicação, eu já estava frente a frente com a própria.

Era impossível não notar a extravagância no decote daquela mulher de pouco mais de um metro e meio, realmente... digamos... um pouco baixa para seu peso. O decote lutava arduamente para conter alguns prováveis mililitros de silicone adicionais ao original de fábrica (pelo menos era o que diziam as más línguas). E antes que os olhos pudessem se recuperar do ofuscamento, em breve chegava a segunda dose. Assim que ela se levantava para lhe anunciar ao Seu Torquato, o decote ficava para trás. A mulher usava e abusava da imagem de seu porta-malas, forçando-o a conter-se em uma roupa sempre um número menor, com a ajuda marcante da lingerie, se é que você me entende. Creia-me, era algo de parar o trânsito, não pelo conjunto, mas pela extravagância. Tudo regado a um sotaque acaipirado que puxava tudo o que tinha direito nos erres.

Mais tarde ouví da boca dos funcionários mais antigos que a Lucimar era até bem recatada antes. Antes do que? Antes de virar secretária do Torquato. Depois que virou o jogo, mudou o guarda-roupa, mudou o tom de voz, mudou tudo.

O que teria feito esta mudança? Proximidade do poder? Não... espere um pouco. Você ainda não sabe de tudo.

O apelido de La Femme surgiu na época em que circulava um seriado na TV (La Femme Nikita), onde uma loiraça usava e abusava de seus atributos no desempenho de suas funções de agente secreta. Seduzia, agradava, adulava, insinuava, mas o fim era um só: ou os adversários viravam poeira, ou acabavam comendo da mão dela. Os colegas e até o chefe eram meros comandados diante da sua influência.

E assim era La Femme Lucimar. A primeira lição que se aprendia era que ninguém chegava ao Torquato sem passar por ela. E até que o pobre observador conseguisse sair do torpor da cena extravagante, a Lucimar já o tinha sob estrito controle. Ela já o havia medido de alto a baixo, feito meia dúzia de perguntas que eram respondidas sem filtro, sem atenção, na base do que primeiro viesse à cabeça, sabe-se lá como. E já tinha uma sentença para o coitado. Quem caísse em suas graças, feliz seria. Mas quem desagradasse a Lucimar, ia se dar mar  (ou como diria o Jânio, “dar-se-ia mal”)

Mas a Lucimar não se contentava com a figura de leão-de-chácara da sala do dono. Ela era mais, muito mais. Não era só a sala que ela guardava, não.

Era fácil de ver na mesa da Lucimar um porta-retratos com a foto de um rapazinho, pre-adolescente, coisa dos seus 12 ou 13 anos. Ela falava do “Tinho” com um orgulho típico de mãe que era. Volta e meia o trazia em festas e reuniões sociais. E sempre falava do marido, que isso, que aquilo. Só que nunca alguém o tinha visto, fosse em foto, fosse nas festinhas, fosse numa mera tarde vindo busca-la. Essa ausência por mais de dez anos custou ao suposto marido da Lucimar o apelido de “virtual”. Os maldosos de plantão não custaram muito a insinuar que o Tinho, a medida que crescia, ficava mais e mais parecido com o Torquato. E pensar que a Lucimar virou secretária dele justamente um ano antes do Tinho nascer... Que língua esse pessoal tinha...

Mas, fosse verdade ou fosse mentira essa história do Torquatinho, digo, Tinho, a verdade é que a Lucimar mandava e desmandava no Torquato. O que me fez rapidamente aprender a segunda lição: ninguém conseguia nada com o Torquato sem antes ter a benção da Lucimar. Bastava sentar na frente dela e falar um pouco do assunto. Se ela se empolgasse, ponto. Se ela se desinteressasse ou fizesse uma cara de desaprovação, era melhor não insistir. Contava-se que os que tentaram pagaram caro.

A mulher mandava em todo mundo. Até assinava os cheques, fazendo a assinatura por extenso: Ermenegildo Torquato de Oliveira. O Torquato é que parecia sofrer para acertar sua própria assinatura. Era amigaça da mulher do Torquato e conselheira dos filhos adolescentes dele. Coisa de louco!

A Lucimar era o poder. Lucimar era a força. Era a explicação das coisas que davam certo e das coisas que davam errado. Era ela quem definia os limites do bom e do ruim.

Fosse quem fosse, rapidamente aprendia o ditado (melhor falado com sotaque caipira): “fale com a Lucimar, é melhor e não faz mar

Empresa é ou não é um circo?
 




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