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Elefante não sobe em árvore...
a não ser que...

... empresas estão cheias de elefantes em cima das árvores, piando feito sabiás. Gente errada, no lugar errado, fazendo sabe-se lá porque um monte de coisas que ninguém sabe pra que serve. Antes de mandá-los descer, lembre-se: alguém os colocou lá. Alguém os mandou fazer o que fazem. Toda ordem “estranha” tem um grande padrinho. Não a desfaça de imediato. Melhor mandar os elefantes apenas pararem de cantar. Os padrinhos vão aparecer. O que permite que você ache o melhor jeito de fazer os bichos descerem de lá, antes que eles derrubem a árvore.

Carlos Sider é engenheiro químico e administrador de empresas. Tem atuado por muitos anos como executivo contratado por empresas como Bunge, Rhodia, Tintas Coral, Eternit, no Brasil e no exterior, e nos últimos 9 anos como principal executivo. Atualmente é o CEO da Konzept para a América Latina.


Anos atrás eu assumia o posto de Diretor Geral de uma indústria. Os primeiros dias com aquele sentimento de glória foram rapidamente substituídos por uma expressão de sono mal-dormido, do tipo “onde é que fui parar?” Era verdade... eu fora contratado para mudar muita coisa lá dentro, para modernizar, para remodelar, para enfim, voltar a dar lucro, mas jamais imaginaria encontrar tanto rolo.

Minha experiência com esta empresa me levou a “compor” uma pequena estória, que inclusive tenho usado e quero usar para explicar alguns conceitos...


Era uma vez um pobre gerente chamado Lucas. Havia sido contratado para administrar o zoológico da cidade. Zoológico que vinha sendo administrado pelo velho Seu Joel. Contava-se muita coisa a respeito dele. Dizia-se que conversava com os bichos, que isso, que aquilo. Mas era hora do Seu Joel se aposentar. Além da idade comentava-se que o velho Joel havia perdido o gosto pela coisa.

Apesar da idade, Lucas se julgava mais do que capacitado a ocupar a posição. Ele estava verdadeiramente apaixonado pela idéia. Havia sonhado com isso a vida toda. Mal se conteve quando soube que havia sido escolhido entre muitos outros candidatos. Festejou. Comemorou.

Agora chegava o dia tão esperado. Acordou, barbeou-se, colocou sua melhor roupa e foi. Foi recebido pelo velho administrador que lhe deu as boas vindas e seguiu seu caminho.

Era hora de assumir.

Dirigiu-se a seu pequeno escritório. Entretanto, antes mesmo que chegasse a seu destino foi surpreendido por um som muito estranho. Uma voz grave tentava piar como um pássaro. Coisa muuuuito estranha. Procurou, procurou, e acabou achando. Quase caiu de costas. Era um elefante, empoleirado em cima de uma árvore, piando feito um sabiá. Ou melhor, tentando fazê-lo.

Lucas, não querendo machucar os sentimentos do elefante, apresentou-se e foi logo perguntando:

-           ôôôhh, seu elefante, muito prazer. Meu nome é Lucas. Sou o novo administrador
-           muito prazer, seu Lucas. Ficamos sabendo de sua vinda. Seja bem vindo!
-           obrigado... mas, me diga uma coisa... seu lugar sempre foi esse aí, na árvore?
-           É, seu Lucas, de uns tempos pra cá tem sido sim. Tenho ocupado este posto aqui, e me orgulho muito, sabe. Creio que eu e meus colegas temos colaborado bastante para o sucesso da organização deste zoológico...
-           OK, seu elefante, fico muito feliz em saber disso. Então o Sr acha que está no lugar certo?
-           Ora, seu Lucas, estou aqui para servir a organização. Estou aqui, como meus colegas, para desempenhar a função que o organização precisa que eu desempenhe...
-           Certo, elefante, mas me responda: você não gostaria de estar em outro lugar?
-           Bem, já que o sr perguntou, seu Lucas, confesso que sofrí um pouco para aprender a subir nesta árvore. Foi um desafio, mas conseguí vencê-lo. Depois foi duro aprender a piar. Mas a administração do zoológico me pagou um curso com uns sabiás-consultores, e acabei me capacitando. Mas sabe como é, esta tromba aqui não é um bico, sabe...
-           Entendo, seu elefante, entendo. Vamos combinar uma coisa. Fique por enquanto onde está, mas pode parar de piar feito um sabiá. Vamos fazer este teste, OK?
-           OK, seu Lucas, muito obrigado. E conte sempre comigo, certo?
-           Certo, seu elefante. Tenha um bom dia.

Coisa mais estranha, pensou Lucas. O que o Joel tinha na cabeça na hora de mandar elefante subir em árvore? E ainda mais piar! Mas, coitado do elefante. Parecia tão animado com sua função que nem teve a coragem de mandá-lo sair de lá. Faria isso aos poucos, pensou.

Mas antes que se acostumasse com as novidades, Lucas recebia a visita de ninguém mais, ninguém menos do que o prefeito da cidade.

-           Sr. Lucas, como está?
-           Muito bem, Sr. Prefeito, muito bem. A que devo a honra de sua visita?
-           Resolví passar por aqui para saber como está a sucessão de meu velho amigo Joel. Tudo bem?
-           Tudo bem, Sr. Prefeito. Mal tive tempo de começar, mas até então tudo caminha muito bem.
-           Folgo em sabê-lo, Sr. Lucas. Apenas pergunto uma coisa: por que o elefante não pia mais?
-           Ããããhhh, quem? Ah, o elefante... Graaande elefante, não. O Sr o conhece?
-           Claro, Sr. Lucas. Quem não o conhece? Tempos atrás, meus assessores sugeriram que nosso zoológico inovasse, apresentasse algo inédito. Pensei, pensei, pensei e decidí sugerir ao meu bom e velho amigo Joel que o elefante, este animal de porte respeitoso, fosse o primeiro a recepcionar os visitantes. E que ao fazê-lo, se possível, entoasse uma canção. O Joel demorou para aceitar a minha sugestão. Só depois de muita pressão aceitou. E logo em seguida começou com a cantiga da aposentadoria.
-           Entendo, Sr. Prefeito. Sabe o que é? Passei pelo elefante hoje cedo e notei que seu canto estava um tanto rouco. Determinei que ele se abstivesse de cantar, por precaução.
-           Ótimo, Sr. Lucas. Um homem precavido vale por dois. Quando o elefante volta a cantar?
-           Não sei, Sr. Prefeito. Peço sua compreensão quanto a este período inicial. Preciso me inteirar da situação. O Sr sabe... substituir o Sr. Joel não é tarefa fácil. Mas em breve terei prazer em lhe apresentar meu relatório.
-           OK, tome o tempo que for necessário. Desejo-lhe muito sucesso.
-           Obrigado, Sr. Prefeito.


Qual a moral da estória? Por que eu a estou contando aqui?

A estória tem a ver com gente. Gente que faz das suas. E empresas estão cheias de gente. Gente como eu e você.

E por conta de gente, empresas estão cheias de elefantes em cima das árvores, piando feito sabiás. Gente errada, no lugar errado, fazendo sabe-se lá porque um monte de coisas que ninguém sabe pra que serve. Antes de mandá-los descer, lembre-se: alguém os colocou lá. Alguém os mandou fazer o que fazem. Toda ordem “estranha” tem um grande padrinho. Não a desfaça de imediato. Melhor mandar os elefantes apenas pararem de cantar. Os padrinhos vão aparecer. O que permite que você ache o melhor jeito de fazer os bichos descerem de lá, antes que eles derrubem a árvore.

Caso você opte por deixa-los lá sabe Deus até quando, não estacione seu carro embaixo das árvores. Cedo ou tarde os elefantes caem e caem bonito. Enfim, deixa-los no lugar errado faz de você um “grande padrinho”, como o prefeito da estória.  

E vá ensaiando sua saudação: “res-pei-tá-vel pú-bli-cooooooooo!”. Você é o mestre de cerimônias deste circo chamado empresa.
 




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