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Anos atrás eu assumia o posto de Diretor Geral de uma indústria. Os
primeiros dias com aquele sentimento de glória foram rapidamente
substituídos por uma expressão de sono mal-dormido, do tipo “onde é que fui
parar?” Era verdade... eu fora contratado para mudar muita coisa lá dentro,
para modernizar, para remodelar, para enfim, voltar a dar lucro, mas jamais
imaginaria encontrar tanto rolo.
Minha experiência com esta empresa me levou a “compor” uma pequena estória,
que inclusive tenho usado e quero usar para explicar alguns conceitos...
Era uma vez um pobre gerente chamado Lucas. Havia sido contratado para
administrar o zoológico da cidade. Zoológico que vinha sendo administrado
pelo velho Seu Joel. Contava-se muita coisa a respeito dele. Dizia-se que
conversava com os bichos, que isso, que aquilo. Mas era hora do Seu Joel se
aposentar. Além da idade comentava-se que o velho Joel havia perdido o gosto
pela coisa.
Apesar da idade, Lucas
se julgava mais do que capacitado a ocupar a posição. Ele estava
verdadeiramente apaixonado pela idéia. Havia sonhado com isso a vida toda.
Mal se conteve quando soube que havia sido escolhido entre muitos outros
candidatos. Festejou. Comemorou.
Agora chegava o dia tão
esperado. Acordou, barbeou-se, colocou sua melhor roupa e foi. Foi recebido
pelo velho administrador que lhe deu as boas vindas e seguiu seu caminho.
Era hora de assumir.
Dirigiu-se a seu
pequeno escritório. Entretanto, antes mesmo que chegasse a seu destino foi
surpreendido por um som muito estranho. Uma voz grave tentava piar como um
pássaro. Coisa muuuuito estranha. Procurou, procurou, e acabou achando.
Quase caiu de costas. Era um elefante, empoleirado em cima de uma árvore,
piando feito um sabiá. Ou melhor, tentando fazê-lo.
Lucas, não querendo
machucar os sentimentos do elefante, apresentou-se e foi logo perguntando:
- ôôôhh, seu
elefante, muito prazer. Meu nome é Lucas. Sou o novo administrador
- muito
prazer, seu Lucas. Ficamos sabendo de sua vinda. Seja bem vindo!
- obrigado...
mas, me diga uma coisa... seu lugar sempre foi esse aí, na árvore?
- É, seu
Lucas, de uns tempos pra cá tem sido sim. Tenho ocupado este posto aqui, e
me orgulho muito, sabe. Creio que eu e meus colegas temos colaborado
bastante para o sucesso da organização deste zoológico...
- OK, seu
elefante, fico muito feliz em saber disso. Então o Sr acha que está no lugar
certo?
- Ora, seu
Lucas, estou aqui para servir a organização. Estou aqui, como meus colegas,
para desempenhar a função que o organização precisa que eu desempenhe...
- Certo,
elefante, mas me responda: você não gostaria de estar em outro lugar?
- Bem, já que
o sr perguntou, seu Lucas, confesso que sofrí um pouco para aprender a subir
nesta árvore. Foi um desafio, mas conseguí vencê-lo. Depois foi duro
aprender a piar. Mas a administração do zoológico me pagou um curso com uns
sabiás-consultores, e acabei me capacitando. Mas sabe como é, esta tromba
aqui não é um bico, sabe...
- Entendo,
seu elefante, entendo. Vamos combinar uma coisa. Fique por enquanto onde
está, mas pode parar de piar feito um sabiá. Vamos fazer este teste, OK?
- OK, seu
Lucas, muito obrigado. E conte sempre comigo, certo?
- Certo, seu
elefante. Tenha um bom dia.
Coisa mais estranha,
pensou Lucas. O que o Joel tinha na cabeça na hora de mandar elefante subir
em árvore? E ainda mais piar! Mas, coitado do elefante. Parecia tão animado
com sua função que nem teve a coragem de mandá-lo sair de lá. Faria isso aos
poucos, pensou.
Mas antes que se
acostumasse com as novidades, Lucas recebia a visita de ninguém mais,
ninguém menos do que o prefeito da cidade.
- Sr. Lucas,
como está?
- Muito bem,
Sr. Prefeito, muito bem. A que devo a honra de sua visita?
- Resolví
passar por aqui para saber como está a sucessão de meu velho amigo Joel.
Tudo bem?
- Tudo bem,
Sr. Prefeito. Mal tive tempo de começar, mas até então tudo caminha muito
bem.
- Folgo em
sabê-lo, Sr. Lucas. Apenas pergunto uma coisa: por que o elefante não pia
mais?
- Ããããhhh,
quem? Ah, o elefante... Graaande elefante, não. O Sr o conhece?
- Claro, Sr.
Lucas. Quem não o conhece? Tempos atrás, meus assessores sugeriram que nosso
zoológico inovasse, apresentasse algo inédito. Pensei, pensei, pensei e
decidí sugerir ao meu bom e velho amigo Joel que o elefante, este animal de
porte respeitoso, fosse o primeiro a recepcionar os visitantes. E que ao
fazê-lo, se possível, entoasse uma canção. O Joel demorou para aceitar a
minha sugestão. Só depois de muita pressão aceitou. E logo em seguida
começou com a cantiga da aposentadoria.
- Entendo,
Sr. Prefeito. Sabe o que é? Passei pelo elefante hoje cedo e notei que seu
canto estava um tanto rouco. Determinei que ele se abstivesse de cantar, por
precaução.
- Ótimo, Sr.
Lucas. Um homem precavido vale por dois. Quando o elefante volta a cantar?
- Não sei,
Sr. Prefeito. Peço sua compreensão quanto a este período inicial. Preciso me
inteirar da situação. O Sr sabe... substituir o Sr. Joel não é tarefa fácil.
Mas em breve terei prazer em lhe apresentar meu relatório.
- OK, tome o
tempo que for necessário. Desejo-lhe muito sucesso.
- Obrigado,
Sr. Prefeito.
Qual a moral da estória? Por que eu a estou contando aqui?
A estória tem a ver com gente. Gente que faz das suas. E empresas
estão cheias de gente. Gente como eu e você.
E
por conta de gente, empresas estão cheias de elefantes em cima das árvores,
piando feito sabiás. Gente errada, no lugar errado, fazendo sabe-se lá
porque um monte de coisas que ninguém sabe pra que serve. Antes de mandá-los
descer, lembre-se: alguém os colocou lá. Alguém os mandou fazer o que fazem.
Toda ordem “estranha” tem um grande padrinho. Não a desfaça de imediato.
Melhor mandar os elefantes apenas pararem de cantar. Os padrinhos vão
aparecer. O que permite que você ache o melhor jeito de fazer os bichos
descerem de lá, antes que eles derrubem a árvore.
Caso você opte por deixa-los lá sabe Deus até quando, não estacione seu
carro embaixo das árvores. Cedo ou tarde os elefantes caem e caem bonito.
Enfim, deixa-los no lugar errado faz de você um “grande padrinho”, como o
prefeito da estória.
E
vá ensaiando sua saudação: “res-pei-tá-vel pú-bli-cooooooooo!”. Você é o
mestre de cerimônias deste circo chamado empresa.
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