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Brasileiros e Argentinos - negócios sem rixa
Não tenho a pretensão de me achar entendido em relações culturais com los hermanos del Plata, mas confesso que uma peça chave da minha sobrevivência ao processo de argentinização foi o entendimento de uma escala de valores diferente da minha.
Eu me explico.
Imagine uma reunião de negócios entre um grupo de argentinos e um grupo de brasileiros. Esta aí uma situação tão amigável quanto um jogo de futebol entre as duas seleções, acredite em mim.
 

Carlos Sider é engenheiro químico e administrador de empresas. Tem atuado por muitos anos como executivo contratado por empresas como Bunge, Rhodia, Tintas Coral, Eternit, no Brasil e no exterior, e nos últimos 9 anos como principal executivo. Atualmente é o CEO da Konzept para a América Latina.


Tive a oportunidade e a aventura de ter trabalhado por muitos anos em uma empresa de controle argentino. Na verdade os donos eram de origem européia, como aliás boa parte dos latino-americanos, mas no fundo eram argentinos mesmo. Como todo direito a sua personalidade característica. Até que eu, brasileiro (também com alguma origem européia, mas brasileiro) sobreviví bem a esse tempo. Sem sequelas psicológicas (pelo menos é o que eu acho).

Mas mesmo após ter trabalhado para os argentinos, continuei fazendo negócios com eles. Eu me arrisco até a dizer que cultivei bons relacionamentos com eles. Até gostei. E mantenho estes relacionamentos até hoje. Isso não evitou que eu aprendesse centenas de piadas sobre argentinos (que piadas? não é tudo verdade?). E isso não evitou que eu aprendesse o que eles falam dos brasileiros.

Não tenho a pretensão de me achar entendido em relações culturais com los hermanos del Plata, mas confesso que uma peça chave da minha sobrevivência ao processo de argentinização foi o entendimento de uma escala de valores diferente da minha.

Eu me explico.

Imagine uma reunião de negócios entre um grupo de argentinos e um grupo de brasileiros. Esta aí uma situação tão amigável quanto um jogo de futebol entre as duas seleções, acredite em mim.

Pergunte algo a um argentino que ele te responde. Na lata, direto e sem rodeios. Goste você ou não da resposta. Se ele acha que seu produto não tem qualidade, ele fala. Se ele acha que o seu preço está alto demais, ele fala. Ele faz isso porque, na maioria dos casos, o padrão de educação dos argentinos é assim. Direto, falando na cara, respondendo o que foi perguntado. Coisa que os brasileiros chamam de falta de educação.

Mas para os argentinos falta de educação é ficar dando rodeios. Isso eles abominam. Brasileiro fala de futebol, fala de economia, pergunta do clima, conta piadas. Quando perguntado sobre o preço, enrola, deixa a conclusão só pro final. Se acha que o produto argentino é ruim, começa elogiando. Nunca sai descendo o porrete, pois acha que isso seria falta de educação. Os argentinos olham entre si e chamam isso de “el samba”. Para os argentinos as reuniões teriam 10 minutos. Para os brasileiros, duas horas é pouco.

Quer mais? Brasileiros, apesar de nacionalistas, tendem a falar mal das suas coisas (menos futebol). É a economia que anda mal, é a corrupção que não tem fim, é isso e aquilo. Já os argentinos, apesar de saberem que a coisa por lá anda dura, adotam o velho discurso parecido com o futebolístico: para eles, Maradona é o melhor do mundo e um dos melhores da Argentina. Tudo por lá é perfeito. O dos outros é que anda mal, muito mal.

O fato é que um irrita o outro, sendo o que sempre foram: naturalmente brasileiros e naturalmente argentinos. Mas quando se fala em negócios duradouros, um precisa se acostumar a olhar a cena pelos olhos do outro. Pode ser duro, mas é necessário. Pode soar completamente anti-natural, mas é preciso.

Curioso é que, mediante esse exercício de tentar ver pelo olho do outro, as reações da outra parte, mesmo um tanto difíceis de engolir, tornam-se compreensíveis. Diria que até previsíveis. Minimizam-se as surpresas, reduzem-se os gastos de energia com nervosismos e mal-entendidos, e as negociações fluem muito mais fácil.

Só entre brasileiros e argentinos? Não. Entre quaisquer partes de diferentes culturas e valores.

Quer ter a iniciativa de começar negociações com alguma empresa de outro país? Um dos melhores conselhos é tomar informações da cultura do lado de lá. Pode não ter nada a ver com o seu negócio, mas esteja certo de que seu sucesso depende desse conhecimento.

Nesta coluna falaremos bastante a respeito disso. Até a próxima.

 




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