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Já cansei de ouvir
isto de minha esposa, sempre lembrando da ‘minha’ esteira - ganha em algum
dia dos pais, que permanece como ótimo cabide de roupas no nosso quarto. E
eu sempre ‘em forma’. Cada vez mais esférica.
Escrevo isto não que eu já tenha me convencido a malhar duas horas por dia,
mas porque, ironia das ironias, estava eu assistindo um filme na TV com
minha esposa, quando aparece um comercial de um banco falando exatamente
isso: ‘esteira parada não emagrece’. Os sonhos não se tornam realidade se
não lutarmos por eles. Não chegamos ao destino se não colocamos o pé na
estrada, e etc, etc.
Exceção às brincadeiras dela, fiquei pensando... Acabamos de passar pelo
‘dia da borracha’. O dia em que alguém diz ‘adeus ano velho, feliz ano
novo’. A festa traduz, entre outras coisas, a nossa vontade de apagar o que
de ruim aconteceu e ficar só com o que de bom faremos. Temos sempre esta
tendência. Erros? Só no passado! Acertos? É só o que teremos de hoje em
diante! Que ninguém nos segure.
Mas a esteira continua parada, e nós ganhando peso. Os sonhos seguem sendo
sonhos, como se esperássemos alguém para nos acordar trazendo, junto com o
café na cama, os sonhos já realizados e prontos. Choramos por não estarmos
lá, mas não damos o primeiro passo. Lamentamos a falta das coisas que
desejamos, mas nem sequer cogitamos a pagar seu preço. E passa janeiro, e
passa fevereiro, março... e parece que já começamos a esperar pelo fim do
ano. É, parece que este ano não será tão bom. Mas no novo ano tudo será
diferente! Tenho fé...
Que ciclo mais besta!
Racionalizamos demais. O que os outros vão dizer? Dirão que somos daqueles
que corremos atrás do pote de ouro no fim do arco-íris? Dirão que estamos
trabalhando por nada? Outros dizem para deixar os outros falando sozinhos! ‘Na
hora que você chegar lá, eles vêm atrás. Se se não chegar, você pelo menos
se divertiu’.
Mas no que vale a pena investir? Será que é tudo questão de ‘sair fazendo’?
Como saber o que vai vingar, e o que não vai? Em que direção apontar nossos
canhões?
Eu me lembro de um tempo em minha vida quando ‘os outros’ falavam muito
alto. Tão alto que me tiravam o sono, o humor, me davam hipertensão, stress.
Os outros e suas sombras. Fui assim até os meus 30 anos, mais ou menos. Meus
atos eram demasiadamente orientados pelo que ‘os outros’ recomendavam, e
extremamente limitados pelo que ‘os outros’ iriam dizer de minhas
iniciativas. Insegurança, imaturidade? Chame como quiser.
Não estou dizendo que hoje não ouço mais ‘os outros’, pois muitas vezes eles
estão lá a nosso favor. Ouça-os na medida certa. Ouví-los demais é uma
roubada sem tamanho. Mas olhando meus últimos 15 ou 16 anos sou forçado a
reconhecer três fases de erros e acertos que viví no garimpo desta
convicção. Eu o convido a vir comigo folhear meu ‘álbum de recordações’
Fase 1 – a fase ‘jura secreta’. Faço referência à letra da música
composta por Sueli Costa e Abel Silva, gravada por muita gente: Simone,
Maria Bethania, Fagner e mais recentemente, Zélia Duncan:
Só uma coisa me entristece:
o beijo de amor que não roubei
A jura secreta que não fiz; a briga de amor que não causei
Nada do que posso me alucina tanto quanto o que não fiz
Nada do que quero me suprime de que, por não saber, ainda não quis
Só
uma palavra me devora: aquela que meu coração não diz
Só o que o cega, o que me faz infeliz é o brilho do olhar que não sofrí
1989-90. Começou um pouco antes do nascimento da Marina, minha filha. Eu
vinha num crescendo absurdo de atividades, tendo ‘os outros’ como chefes e
juízes. Junto com a ‘forçada de barra’, entrei numa sucessão de gripes,
crises estomacais, hepáticas, contraturas musculares, etc. A cada dia uma
coisa nova, aos 29 anos de idade. Até que o médico da empresa me disse: ‘ou
você se permite descansar de vez em quando, e se permite a uma certa
irresponsabilidade, ou vai acabar se matando’.
Nasceu a Marina, mudei de emprego, muita coisa aconteceu. E investí na fase
‘jura secreta’. Declarei independência de vez! Pena que o fiz de uma forma
meio besta, como um passarinho que sempre viveu em gaiola e quando se solta
não sabe direito o que fazer. Resultado? Alguns projetos impensados, algum
dinheiro perdido, relacionamentos manchados (justamente com alguns dentre
‘os outros’). Pena que demorei para dar esta fase por encerrada. Acho que
uns 7 anos.
Fase 2 – a fase ‘Roosevelt’ - 1997. Estava mudando de emprego,
convidado para ser o diretor geral de uma indústria química, mudando de
cidade, mudando de vida. Dou este nome à fase por conta de duas frases dele
(não o Franklin Roosevelt, presidente dos Estados Unidos no tempo da 2ª
guerra, mas o tio dele, Theodore Roosevelt, que também foi presidente do
mesmo país no começo do século 20):
’Far better it is to dare mighty things, to win glorious triumphs even
though checkered by failure, than to rank with those poor spirits who
neither enjoy nor suffer much because they live in the gray twilight that
knows neither victory nor defeat’
’Muito melhor é ousar coisas poderosas, obter gloriosos triunfos, mesmo
que manchados por falhas, do que alinhar-se com aqueles pobres de espírito
que nem festejam nem sofrem muito, pois vivem naquela zona cinzenta que não
conhece em vitória nem derrota’
E a outra frase:
’Whenever you are asked if you can do a job, tell 'em, 'Certainly I can!'
Then get busy and find out
how to do it’’
’Quando lhe perguntarem se você pode fazer certo trabalho, diga:
certamente que posso! Depois arregace as mangas e ache um jeito de fazê-lo’
Foi um tempo de ‘comigo ninguém pode’. Se é certo que posso listar meus
melhores e maiores acertos profissionais para esta fase, também devo me
lembrar de grandes idiotices feitas por mim neste mesmo tempo. Foi um tempo
de grandiosidades boas e ruins. Guardo até hoje alguns ‘monumentos‘ deste
tempo (a casa onde moro, por exemplo).
Mas
chegou 2001, que marcou o fim da 2ª fase. E creio que a transição para a
terceira foi mais longa – talvez até 2002, 2003.
Fase 3 - Eu a chamo de ‘fase Jeremias’. Por que fase ‘Jeremias’? Eu
me refiro ao profeta bíblico de Israel, que registrou em suas ‘Lamentações’
(Veja Lamentações de Jeremias, cap. 3: 19-26):
’Lembro-me da minha aflição e do meu delírio, da minha amargura e do meu
pesar. Lembro-me bem disso tudo, e a minha alma desfalece dentro de mim.
Todavia, lembro-me também do que pode me dar esperança: Graças ao grande
amor do SENHOR é que não somos consumidos, pois as suas misericórdias são
inesgotáveis. Renovam-se cada manhã; grande é a sua fidelidade! Digo a mim
mesmo: A minha porção é o SENHOR; portanto, nele porei a minha esperança. O
SENHOR é bom para com aqueles cuja esperança está nele, para com aqueles que
o buscam; é bom esperar tranqüilo pela salvação do SENHOR’
Os tempos mudaram, e muito. Continuo cantando ‘jura secreta’? Muitas vezes.
Continuo lembrando das frases de Roosevelt? Sim, quase sempre.
Mas com uma diferença. Achei meu equilíbrio em Deus, cantando a música e
repetindo a frase quando Deus me manda, quando Deus canta junto, quando Deus
me lembra.
Abre parênteses.
Não sei, caro leitor, de sua crença pessoal, mas afirmo categorica e
abertamente a minha fé no Deus da Bíblia. Ela é tão forte em minha vida
pessoal e profissional que me é impossível escrever tais ‘memórias’ sem
fazer estas menções. Sendo esta revista um espaço empresarial - e não
religioso - é natural que este texto chegue a pessoas que não comunguem
desta minha experiência e fé (inclusive entre outros colegas autores). Se
este é o seu caso, eu peço sua atenção para este meu relato pedindo a
eliminação de filtros advindos de conceitos talvez desgastados de
religiosidade. Falo de e vivo uma experiência real com Deus, que transcende
em muito ritos, organizações, hábitos ou filosofias.
Fecha parênteses.
Tenho dado trabalho a Deus para aprender a unir arrojo com equilíbrio;
impetuosidade com racionalismo; energia com paciência. Tenho dado trabalho,
mas Deus é o melhor professor. Se já aprendí algo, se já mudei algo? É
provável. Mas ainda há uma longa estrada pela frente.
Dentre
as coisas que aprendí está o ‘sonhar junto com Deus’, a ser impetuoso e
arrojado nas coisas onde Ele é patrocinador, e a ficar quieto no meu canto
enquanto Ele não se manifesta, ou quando diz não. Esse procedimento tem me
livrado de repetir tantas idiotices feitas no passado.
E tenho também aprendido que Deus sonha bem mais do que eu. Sonha, pensa,
planeja alto. E realiza muito. Só que não é de revelar o plano todo logo de
cara. Deus não me diz onde acaba a estrada, mas me dá direção suficiente
para sair de casa. Vai me mostrando o caminho por partes, quase que passo a
passo. É um bom exercício para a minha fé e minha dependência Dele.
Pode parecer loucura, mas tenho feito bem mais do que fiz nos fases
anteriores (a ‘jura secreta’ e a ‘Roosevelt’). Nada melhor do que concentrar
esforços no que fá certo.
Por isso, minha sugestão (e minha prática) não é comemorar o ano novo, nem
esperar grandes coisas dele, nem fazer grandes planos para ele. Melhor é
comemorar o dia novo que começou horas atrás. Melhor é viver este novo dia
como aquele que meu Deus me deu a viver hoje. O dia a dia me traz
expectativas mais reais, mais próximas. E mesmo em caso de erros, prazos
mais curtos significam erros menores e correção rápida.
E quando nem tudo vai bem? Como Jeremias, vejo tudo e lembro de tudo, pois
não sou cego. Mas prefiro lembrar daquilo que pode me dar esperança. Deus
está comigo e é bom esperar Nele. É a melhor opção.
O que espero a longo prazo? Por certo sigo tendo minhas preferências, meus
sonhos, meus planos. Mas aprendí que é melhor e mais eficaz fazer tudo ao
lado de Deus. É bem mais que um turbo no meu motorzinho. E tiro certo no
alvo certo. Melhor racionalização de energia não há.
Ano a ano? Não! Mesmo tendo os olhos mais longe, prefiro comemorar o dia a
dia. Afinal, conforme ensina Jeremias, é esta a periodicidade que Deus usa
para renovar Sua misericórdia sobre mim.
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