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Não mande, nem motive. Inspire!
Inspire pelo
exemplo, pelo compartilhar de sonhos, divida o prazer e a autoria das
jogadas, provoque-os, quebre regras, siga regras, seja o que e como for,
inspire! Inspire com base na sua própria inspiração. Compartilhe a sua
inspiração, pois isso é claro: ninguém inspira alguém se ele próprio não for
um inspirado. Portanto, é realmente coisa para poucos.
Ah, você tem um grupo de ‘motiváveis’, não de ‘inspiráveis’? Siga
inspirando-os, mesmo porque inspirar está num grau acima de motivar, mas
serve muito bem. E você nunca sabe (não sabe mesmo) qual lagarta vai ser
borboleta um dia.
Ah, você só tem um montão
de ‘mandáveis’? Bom, boa sorte. Você deve mesmo gostar de sofrer... ou de
mandar. |
Carlos Sider é
engenheiro químico e administrador de empresas. Tem atuado por muitos anos
como executivo contratado por empresas como Bunge, Rhodia, Tintas Coral,
Eternit, no Brasil e no exterior, e nos últimos 9 anos como principal
executivo. Atualmente é o CEO da Konzept para a América Latina. |
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Minhas primeiras
experiências como chefe de qualquer coisa foram a mais pura demonstração de
ignorância. Das aventuras musicais adolescentes em bandas de garagem a meus
primeiros cargos gerenciais. Ignorância pura, não no sentido da estupidez,
da violência, mas no sentido do desconhecimento mesmo. Ignorava por completo
os mecanismos que fazem um liderado seguir a instrução de um líder.
Resultado? O que faz um ignorante desses? Segue pelo princípio mais simples,
mais difundido, e drasticamente idiota: manda quem pode, obedece quem tem
juízo. Se o líder manda, o resto que obedeça.
Funciona?
Funciona uma ova! Pode por frações de tempo oferecer a ilusão de que
funciona, mas a verdade rapidamente se descortina a qualquer observador mais
atento: mecanismos de coerção só funcionam enquanto existir força, castigo,
punição, facão, demissão. Elimine-os e de bate-pronto você não tem mais
liderados, mas inimigos furiosos, vingativos, na proporção da força que lhes
foi impingida.
Mas por sorte minha, logo em meus primeiros anos gerenciais tive a chance de
também liderar – em paralelo ao meu trabalho diário - grupos voluntários em
projetos sem fins lucrativos. Meus liderados nestes projetos não ganhavam
nada para estar lá; ao contrário, financiavam junto comigo o projeto.
Passavam o dia trabalhando e gastavam suas horas vagas em projetos que lhes
apeteciam a alma, não o bolso. Não se definia, em hipótese alguma, qualquer
mecanismo coercitivo.
Resultado? De que forma o recém-ignorante-líder-que-agora-pensa-saber-algo
age nessas horas? Faz suas pesquisas em livros, cursos e diz-que-diz e sai
dizendo que a chave tem o nome de ‘motivação’.
E lá fui eu encontrar meios de motivar minha equipe. Dediquei-me a inventar
fórmulas mirabolantes que dariam inveja a engenheiros de programas
espaciais. Gastei horas explicando e convencendo meus superiores e os
diretores de RH a liberar bônus, prêmios, comissões. Cenouras para os
cavalos, doces para as crianças. Isso no ambiente profissional. No ambiente
do voluntariado, cada qual trazia de casa seu próprio doce, e eu tentava
servir tudo num prato só.
Funciona?
Até que sim, mas tampouco satisfaz! É fato que motivar é anos-luz melhor do
que mandar. Qualquer um prefere ter motivos para fazer do que castigos por
não fazer. Mas, como em todo ‘modelo de gestão’, existem falhas e problemas.
Quais os motivos que o fazem sair de casa todo dia? Dinheiro, poder,
realização pessoal, status, ambiente de trabalho, imagem profissional? Ora,
cada qual tem os seus. Mude as pessoas e você muda os motivos. Como esperar
que todo um grupo delas possa se motivar pela mesma coisa?
Ok, já sei, você dirá que a parte mais sensível do corpo do homem é o bolso.
Trate-o bem e cada qual transformará seu conteúdo no que lhe apetece.
E eu direi que até concordo, mas só até o ponto em que o que pesa é o bolso.
Até o ponto em que ainda existe doce na bandeja para a criançada. Até o
ponto em que todas as crianças gostam de cajuzinho (e as que não gostam?).
Até o ponto em que descobrem que você as está tratando como crianças. Até o
dia em que lhes cai a ficha de que não passam de focas amestradas que fazem
suas micagens para ganhar meros peixinhos, embora sejam o show. Até o dia em
que começam a chamar os doces e as cenouras de subornos, ainda que
disfarçados.
Mas graças a Deus minha sorte continuou. Seguí trabalhando com grupos de
voluntariado durante minha ‘fase motivacional’. Sentí na pele a missão
impossível de motivar sem ‘suborno’; de tentar entender o que fazia alguém
gastar tempo livre e até suas economias em projetos abstratos, pessoais,
admirados por uns, questionados por outros.
Rapidamente aprendí que não existia resposta única ou fácil. Tantas fossem
as pessoas, tantas seriam suas distintas motivações. Como então generalizar?
Também descobrí que motivações mudam com o tempo. As pessoas mudam, suas
necessidades e sonhos mudam junto. Como acompanhar? Como saber quando mudar?
Aprendí que a coisa era realmente complicada. Muito mais complicada.
Praticamente secreta, inatingível, exclusiva a seus próprios donos.
Resumo da ópera?
Notei que os melhores profissionais – aqueles que mais faziam, que melhor
faziam, que mais supreendiam – não precisavam ser mandados a fazer nada.
Traziam de casa mais do que motivação. Traziam algo que, ainda que
desconhecido, era o que lhes fazia produzir muito mais e melhor do que os
medíocres. E notei que a ‘tal coisa’ não era algo que estava sob seu
controle; era a ‘tal coisa’ que os dominava, que os controlava. Eles eram
propriedade da coisa, não proprietários.
Passei a gostar de chamar a tal coisa de inspiração. Você pode chamar de
dom, talento, jeito, arte, como quiser, mas prefiro inspiração. Acho que
traduz melhor o que quero dizer. Inspiração é mais.
Pense
em um esportista de destaque e me diga o que o faz despontar? Dedicação,
disciplina, regularidade, treino, perseverança? Ora, tudo isso faz parte do
jogo, mas quantos há que tem tudo isso, ou até mais, mas nunca saem da
média? Ora, o que caracteriza um gênio é sua capacidade e coragem de seguir
por onde ninguém antes seguiu, de tentar o que ninguém tentaria, de tornar
possível o que os demais dizem ser impossível, de inventar coisas novas a
cada chance que tenha. Enfim, inspiração. Quando dizemos que a jogada foi
inspirada destacamos que ela foi genial, criativa, inédita, especial,
que fugiu do lugar comum.
É a inspiração que faz com que se tente o novo (ainda que ‘de novo’), que se
tente e se vença o desafio. É pela inspiração que alguém transforma meras
rotinas em obras de arte, por executá-las com maestria, com genialidade,
pelo puro e simples prazer de deixar sua assinatura, algo que por tempos
será imitado ou que levará anos para ser igualado.
Que tipo de profissional você deseja em sua equipe, em sua empresa, em seu
negócio, em seu projeto?
O que precisa ser mandado a fazer toda e qualquer coisa a cada momento do
dia? Eu não. Francamente tenho mais o que fazer.
O que precisa de motivação para entregar os resultados? Convenhamos que uma
boa equipe tem um montão de gente assim. E são gente boa, útil, batalhadora,
competente. Não se faz uma equipe sem eles. Mas só com eles não se faz um
time vencedor.
Por isso para os postos-chave prefiro os inspirados, os gênios, ainda que
tidos vez por outra por malucos, encrenqueiros, temperamentais, estranhos. É
deles que eu posso esperar ‘as jogadas que concorrente nenhum faria’. É
deles que posso esperar a recuperação de uma bola impossível, seguida de sua
transformação em uma jogada histórica.
Como encontrá-los? Onde achá-los?
Duas são as fontes, ou melhor, dois são os grupos dos inspirados:
1) o grupo dos que já são e sabem que são
Eles se apresentam um tanto malucos, reacionários, questionadores, críticos,
bocudos, e algo mais que possivelmente vai incomodá-lo (mesmo que você mesmo
seja um ‘inspirado’). Creio que todos são assim. Vivem realmente em outro
planeta. Jamais encontrei um inspirado ‘certinho’. Diante deles seu trabalho
e desafio é:
a) conhecê-los,
b) tentar entendê-los (boa sorte!), e
c) verificar se há
química entre o ‘inspirado’ e o seu negócio, mesmo porque não aconselho
imaginar que um ‘inspirado’ vá mudar seu jeito só por conta de sua proposta
(falando de futebol, Ronaldinhos raramente defendem e Dungas raramente
inventam jogadas). O ‘inspirado’, embora seja o bicho mais imprevisível do
mundo em suas jogadas, é também previsível em seu jeito de ser – ele é o que
é por convicção íntima, não por pressão. E nisso não adianta imaginar que
ele vá mudar.
2) e o grupo dos que são (ou serão) mas ainda não sabem
Francamente esse é o grupo que gosto mais. Lagartas que ainda não viraram
borboletas. Um leigo pode chamá-las de lesmas, mas um bom biólogo antevê o
que ainda ninguém viu. O seu e meu desafio é ser esse biólogo.
Seja com os já inspirados, seja com os potenciais, meu conselho é o mesmo:
inspire-os! Inspire pelo exemplo, pelo compartilhar de sonhos, divida o
prazer e a autoria das jogadas, provoque-os, quebre regras, siga regras,
seja o que e como for, inspire! Inspire com base na sua própria inspiração.
Compartilhe a sua inspiração, pois isso é claro: ninguém inspira alguém se
ele próprio não for um inspirado. Portanto, é realmente coisa para poucos.
Ah, você tem um grupo de ‘motiváveis’, não de ‘inspiráveis’? Siga
inspirando-os, mesmo porque inspirar está num grau acima de motivar, mas
serve muito bem. E você nunca sabe (não sabe mesmo) qual lagarta vai ser
borboleta um dia.
Ah, você só tem um montão de ‘mandáveis’? Bom, boa sorte. Você deve mesmo
gostar de sofrer... ou de mandar. Mas permita-me um conselho: livre-se de
todos ou de boa parte deles e, se necessário, inspire-se. Você verá que
ganhar os resultados compensam.
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