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Ganhe um pouco e gaste um pouco... menos
Tenho aprendido o que esta frase-título sintetizou. Passo a passo, um de cada vez. Pouco a pouco. Ganhe um pouco, gaste um pouco. Ganhou mais, gaste mais. Ganhou menos, gaste menos.
Ah, e como ficamos no empreendedorismo, onde em geral se gasta primeiro para ganhar depois? Ora, vale o mesmo. Sua parte é adivinhar quanto pode ser gasto e que, na conta final, seja menor do que o total que você ganhou.
E como se faz isso? Boas doses de arte. De estômago e amor ao risco. Com direito a grandes festas e também alguns tombos. Mas...
 

Carlos Sider é engenheiro químico e administrador de empresas. Tem atuado por muitos anos como executivo contratado por empresas como Bunge, Rhodia, Tintas Coral, Eternit, no Brasil e no exterior, e nos últimos 9 anos como principal executivo. Atualmente é o CEO da Konzept para a América Latina.


O website onde achei esta frase indica que seu autor é desconhecido. Bem, pode ser desconhecido, pode ser anônimo... mas é um gênio. Talvez um gênio do empreendedorismo.

Fui executivo por vários anos, como indica a minha biografia (ou como gostam de chamar hoje em dia os head-hunters, minha biodata). Tive minhas primeiras aventuras empreendedoras ainda enquanto executivo, mas há coisa de 6 pra 7 anos sou um empreendedor em tempo integral. Ou como se diz neste nosso país imprevisível, um pobre coitado de um empresário sobrevivente, o “próprio-otário” de um negócio. Que talvez chore um pouco demais, mas deixa isso pra lá...

Olhando para o passado e o caminho de lá para cá, vejo que muita coisa mudou. Confesso que faz pouco tempo que penso como penso. E uma das áreas onde mais forte se reflete esta mudança de pensamento é a administração dos recursos financeiros. Como entender e como enfrentar o dia a dia em um ambiente onde os recursos, definitivamente, não andam sobrando no caixa de ninguém.

Se você vier comigo em minha viagem de volta ao início dos anos 80, você me verá um engenheiro recém-formado. Meu universo era o estritamente técnico, fazendo jus a minha escola (Poli-USP). Minha preocupação era a de buscar as melhores soluções e ações dentro da fábrica, nos equipamentos, nos processos. O dinheiro para isso? Ora, o dinheiro... não seria aquela entidade etérea com a qual lidavam os caciques do departamento financeiro? Para um engenheiro recém-formado trabalhando em multi-nacional, o dinheiro era algo que os administradores tinham de arranjar se quisessem a melhor solução técnica. E ponto final. Quer o melhor equipamento? Custa tanto. O melhor produto? Mais tanto. Como assim, cortar 30%? Que absurdo! Que falta de excelência!

Bom, antes que eu queira bater nesse “engenheirinho”, vamos dar um forward  na fita (fita mesmo... naquele tempo não havia DVD). Vamos aos primeiros anos 90.

Nestes anos você já me verá diferente. Além de mais gordo, calvo, casado, com filhos, já me verá gerente, com um tipo de MBA em administração. Àquela altura, por bem ou por mal, eu já havia sido introduzido ao famigerado budget (ou ‘orçamento’ para os nacionalistas). E não só na empresa, mas também na minha casa, no supermercado, no cartão de crédito, em tudo quanto era lugar. Já conhecia o fulano (o budget) não só de ouvir falar, mas por saber das consequencias de não leva-lo a sério. O engenheiro já havia dado um bom espaço ao administrador. E os purismos técnicos onde ficaram? Ora, subordinados à lei do “aqui se faz, aqui se paga”.

Embora eu continue acreditando, naqueles tempos eu acreditava muito em planejamento. Meus erros eram geralmente planejar e depois querer seguir fielmente o script, sem parar para reavaliar tantas vezes quantas era necessário. Mas me dê um desconto... o engenheiro podia ter seus 10-12 anos de formado, mas o administrador havia acabado de nascer.

Bom, lá pelo fim dos anos 90 você me verá diretor de uma indústria. Quase nada engenheiro, muito vendedor, muito administrador. Se não por gosto, por sobrevivência. E cá entre nós, um tanto calejado e cansado de planejar e ter que mudar tudo ainda nos primeiros passos. A verdade é que eu já mostrava sinais de rendição à lei de mercado. À lei que diz que você deve gastar só o que ganha, e de preferência, gastar um pouco menos do que ganha. Pouco importa se o seu planejamento dizia que ia dar mais. Pouco importa se você gastou por conta. A avaliação final se faz pela conta aritmética mais simples: tudo o que entrou menos tudo o que saiu. Quanto deu? Positivo? Palmas pra você. Ish, não sobrou nada? É... deve sobrar pra você...

E já que era pra brincar de adivinhação resolví adivinhar por conta própria. Deixei de trabalhar para os outros. E aqui estou hoje, empresário. Este próprio website onde você lê este artigo faz parte de um dos negócios onde estou metido.

E aqui, humildemente, reconheço minha inferioridade diante desta “besta-fera”: o mercado. E não estou falando de marketing e sim de dinheiro. Afinal, é ele quem paga as minhas contas. Se o meu negócio tem clientes que compram e pagam, eu tenho receitas. E com estas receitas pago os custos e os investimentos. Aliás, eu mesmo um destes custos. Simples? Simples na teoria! Simples uma ova! No dia a dia, como adivinhar?

Tenho aprendido o que esta frase-título sintetizou. Passo a passo, um de cada vez. Pouco a pouco. Ganhe um pouco, gaste um pouco. Ganhou mais, gaste mais. Ganhou menos, gaste menos.

Ah, e como ficamos no empreendedorismo, onde em geral se gasta primeiro para ganhar depois? Ora, vale o mesmo. Sua parte é adivinhar quanto pode ser gasto e que, na conta final, seja menor do que o total que você ganhou.

E como se faz isso? Boas doses de arte. De estômago e amor ao risco. Com direito a grandes festas e também alguns tombos. Mas, se vivida com a devida arte, é uma vida que você não larga mais. Eu pelo menos não largo.

E no mais? Deixei de planejar? De jeito nenhum! É aquele tipo de ferramenta que se deve usar sempre que dá. Mas “sempre que dá” não é sempre. Quem diz quando dá? O mercado. Se o mercado não está pagando, se as vendas baixaram, se o governo mudou as regras mais uma vez, ajuste-se hoje antes que seja tarde. Se necessário replaneje tudo. Só não fique parado.

E o engenheiro, onde fica. Aqui mesmo, devidamente domesticado há vários anos. Tal como o administrador, o planejador, o empreendedor. Tal como eu mesmo, humanamente falando. Afinal, por quantas e quantas vezes a água bateu “lá”, e eu tive que aprender a nadar...  Nada como o dia a dia da vida para nos deixar  amestrados, domesticados, maduros.

A vida se faz aos poucos. A gente aprende aos poucos. A gente envelhece aos poucos (ainda bem). E os nossos negócios também, com a devida arte, crescem aos poucos.

 




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